quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Menino Perdido, de Susana Teles Margarido


Brites Araújo, no Correio dos Açores do dia 9 de novembro de 2008, publicou uma recensão sobre "O Menino Perdido", de Susana Teles Margarido, a qual pode ser lida aqui.


Era uma vez uma ilha muito verde, erguida no meio de um oceano muito azul.

É desta forma que tem início a história que Susana Teles Margarido nos conta n’O Menino Perdido, o seu mais recente livro para crianças, apresentado aos leitores de Ponta Delgada, nas suas versões portuguesa e inglesa, no passado dia 31 de Outubro.

E “Era uma vez…” é tudo o que basta para que a memória corra a recuperar esse outro tempo em que, ansiosos, esperávamos o ritual do conto, ou a viagem deliciosamente solitária da sua leitura. Nesses momentos de encantamento, em que fazíamos silêncio, ou nos “sozinhávamos” (como diria Mia Couto) para melhor nos enchermos de maravilhoso e de fantástico, redimensionávamos a nossa própria geografia e o mundo já não cabia à nossa volta. A leitura e/ou a narrativa tinham a capacidade de o estender para além dos seus limites conhecidos, transportando-nos para uma outra dimensão de nós mesmos, e plasmando o que éramos então de forma tão indelével que hoje funcionam como espelho onde buscamos reflexo do que efectivamente somos.

Os mundos maravilhosos e fantásticos que Susana Teles Margarido (re)cria n’O Menino Perdido, como noutros contos infanto-juvenis de que é autora, estão povoados de personagens, situações (a que não tem faltado a viagem iniciática) e criaturas que se inscrevem no imaginário e na tradição da literatura para crianças. Sereias e monstros marinhos, plantas aquáticas com poderes mágicos, animais que falam, reinos submarinos e reinos de gelo, vacas e golfinhos voadores, fadas e duendes, pais-natal para cada mês do ano, são alguns exemplos do fantástico e do maravilhoso que preenchem as obras desta autora.
No entanto, se, por um lado, eles constituem o elemento charneira desses universos literários, por outro, são sempre mediados por um real geográfico que tem nas ilhas dos Açores o seu cais de partida e de regresso. E é neste real geográfico que se cumpre, no caso d’O Menino Perdido, como na obra que o antecedeu (Luna e as Ilhas Fantásticas dos Açores), a função pedagógica dos seus livros. E essa, que é explícita em Luna, ganha n’O Menino Perdido a tonalidade subtil do amor à terra, de um amor que resgata do estigma, da pequenez, do abandono, e nos aponta a necessidade de a inscrevermos no imaginário dos contos para que ela se apresente, aos nossos olhos e aos nossos corações, com o encanto, a magia e a beleza das coisas que guardamos e por que zelamos com carinho.


Assim, a possibilidade de haver sereias a povoar o litoral de Rabo de Peixe, risível na realidade que conhecemos, extrapola do universo fictício d’O Menino Perdido para o real empírico como metáfora do potencial implícito nas coisas à nossa volta: potencial de beleza, de grandiosidade, de inclusão e de pertença. Trata-se, afinal, da possibilidade de, como disse no início, pela literatura, redimensionarmos a nossa própria geografia para que, no fim, aquilo que somos, ou o que fomos sendo, se alargue sempre mais e caiba, por inteiro e por direito, no imenso e maravilhoso universo da Coisa Humana; seja ela tão real e palpável como o cais de Rabo de Peixe, ou tão impalpável, mas nem por isso irrealista, como este menino perdido que a autora trouxe agora a público.

É já um lugar comum afirmar que existe uma criança em cada um de nós, adultos. Não estou certa de que isto possa ser aplicado indiscriminadamente, mas pode-se afirmar que a criança que há uns quantos anos atrás lia e/ou ouvia histórias de encantar, está presente na narradora d’ O Menino Perdido, como nas dos outros contos infantis de que Susana é autora, e que está, sobretudo, presente na forma maravilhada com que nos vai narrando esses mundos tão extraordinários.

E porque nenhuma produção literária digna desse nome menospreza o seu objecto ou o seu leitor, tenha este a idade que tiver, é de toda a justiça referir que a autora, em circunstância alguma, cedeu à voz de falsete, no que esta representa de depreciativo no contexto da literatura infanto-juvenil, demonstrando, desta forma, o respeito e a seriedade que os seus potenciais leitores lhe merecem.

O Menino Perdido leva-nos numa maravilhosa e fantástica viagem submarina a latitudes e a reinos apenas sonhadas, de que as ilustrações de Fedra Santos, artista nortenha cujo currículo inclui a ilustração de autores como Sophia de Mellho Breyner Andresen e Nicolás Guillen, são um complemento pictórico de qualidade assinalável, ao interpretarem não só o imaginário infantil, como a singularidade do espaço geográfico de referência, numa adesão inequívoca ao universo proposto pelo livro.

Susana Teles Margarido convida-nos, então, adultos e crianças, a embarcarmos rumo aos mundos fantásticos do nosso imaginário, convite a que basta responder com a nossa vontade de nos enchermos de infância e com a nossa adesão à senha mágica: “As fadas, eu creio nelas […]”.

Brites Araújo, Correio dos Açores, 9 de novembro de 2008

Arlequim nas ruínas de Lisboa, de Norberto Ávila

ARLEQUIM NAS RUÍNAS DE LISBOA
Comédia de maus costumes



Escrita em 1992 e nesse mesmo ano estreada em Lisboa, no Teatro da Trindade, com encenação de Carlos Cabral, teve por essa altura uma 1ª edição restrita, da Escola Superior de Teatro e Cinema; 2ª edição: Novo Imbondeiro, Lisboa, 2004. Próxima edição: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, numa recolha de 18 peças do autor, em 2 volumes.

OPINIÃO
(de Valentim Lemos, a propósito desta peça): “Num país onde o teatro é olhado com pouco interesse pelo poder e com desconfiança pelo grande público, num país onde a edição teatral é escassa e a produção de peças originais portuguesas é diminuta, Norberto Ávila aceitou o risco da situação de dramaturgo profissional; é um dos únicos, senão o único, dentre os nossos dramaturgos actuais, que o fez. A sua produção dramatúrgica é, por isso, regular, e dessa regularidade resulta uma experiência acrescida, um ‘métier’ que apoia a vontade criativa. As suas peças, cada vez mais solicitadas, encontram um acolhimento caloroso, embora continuem – é mania nacional – a ser melhor conhecidas no estrangeiro que em Portugal.”

SINOPSE
O jovem Alceu Beringela regressa a Lisboa nas vésperas do terramoto de 1755. (Estivera uns anos em Goa, ao serviço do Marquês de Távora, Vice-Rei da Índia. De passagem por Veneza, deixou-se encantar pela commedia dell’arte, e acompanhou mesmo uma companhia itinerante por várias cidades. O seu grande sonho: tornar-se um Arlequim, em Portugal.)
Este nosso Arlequim (cujo fato tradicional o caracteriza) encontra a sua casa ocupada pela madrasta, que ele ainda não conhece. O pai, especialista em falsos testemunhos, está preso no Limoeiro.

Arlequim apaixona-se então por uma jovem vizinha, Marília, a quem ele chama “a sua Colombina” e dedica-se à venda de folhetos de cordel.

Com o sismo do 1º de Novembro, desmoronam-se umas paredes do Limoeiro, e Cornélio Berigela, pai de Arlequim, põe-se a salvo e entrega-se ao saque das nobres residências arruinadas. Como, na sua juventude, Cornélio havia sido titereiro no Teatro do Bairro Alto (de António Josè da Silva), o filho desafia-o a criar uma companhia teatral. Mas o cavalheiro de indústria  não está para aí virado. Prossegue nos seus rapinanços, até que se lhe desmoronam em cima uns escombros do muro do quintal. E não sobrevive.
Com a cumplicidade de Marília, Arlequim surge em casa trasvestido de freira de Odivelas e convence a madrasta (Libertina Vitalícia) a fixar residência no famoso convento. Fica-lhe a casa, portanto, à inteira disposição.

Marília, que entretanto passa a viver com Arlequim,  entra ao serviço de Sebastião de Carvalho e Melo (futuro Marquês de Pombal), a quem pede patrocínio para a tão desejada companhia teatral de Arlequim. E este, como prova do seu talento, decide-se a imitar o jesuíta Gabriel Malagrida, visceral inimigo de Carvalho e Melo. Porém o Ministro não se comove. E tem outras prioridades. Está a reconstruir Lisboa!

Põe-se a hipótese de Arlequim aceitar o patrocínio dos Marqueses de Távora (entretanto regressados à pátria). Mas o ilustre casal vê-se envolvido nas suspeitas de atentado contra  o Rei D. José. E Arlequim, pelo simples facto de ter sido criado dos suspeitos (já condenados à morte), receia continuar em Lisboa. Com Marília, grávida, decide empreender uma romagem a Santiago de Compostela e permanecer no estrangeiro até que os ares em Portugal se tornem mais respiráveis.

Norberto Ávila

Os silos do silêncio, de Eduíno de Jesus

Os Silos do Silêncio, de Eduíno de Jesus, por Carla Cook em Notebook.


Esta antologia pessoal reúne as poesias mais emblemáticas do autor de 1948 a 2004 – meio século de poesia que passeou por tão diferentes caminhos e temáticas que julgamos, por vezes, estar perante diferentes autores. Por isto mesmo, é difícil etiquetar a obra. Na busca de contextualizações, notam-se influências maiores como a do concretismo e a do simbolismo, com alguns traços românticos. Mais fácil é dizer que o autor segue o caminho multifacetado e caleidoscópico da Modernidade.

Redutor também é falar-se de uma obra tematicamente centrífuga, numa poesia que tanto explora, e com o mesmo à vontade na pena e no sentir, a metafísica como o quotidiano nas suas múltiplas vertentes e, entre estes dois pólos, as artes.

Obra não completa de um autor que continua a surpreender, mas, seguramente, condensado mimo poético coligido pelo próprio e com direito a Inéditos. A perspicácia do leitor exige-se.

Eduíno de Jesus nasceu em S. Miguel em 1928. Foi docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, mais tarde (entre 1979 e 2000), regente da cadeira de Teoria de Literatura na Universidade Nova da mesma cidade. Foi um dos directores da Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura da Verbo e ainda colaborador da Enciclopédia de Leitura Biblos e do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses. Embora a sua obra seja mais profícua e conhecida no campo poético, não se limita a este, tendo igualmente publicado artigos, crónicas, contos e drama. Polímata activo, escreve continuamente sobre vários assuntos. É conhecida a sua actividade dinâmica enquanto Presidente da Casa dos Açores em Lisboa entre 2003 e 2009, que lhe valeu o merecido epíteto em livro publicado pelo IAC de “Eduíno de Jesus - A Ca(u)sa dos Açores em Lisboa”.

Carla Cook, in http://notebookcarlacook.blogspot.pt, 19 de maio de 2011


Os Silos do Silêncio, de Eduíno de Jesus, por Luiz Antonio de Assis Brasil.

Nascido em Porto Alegre no ano de 1945, Luiz Antonio de Assis Brasil é um dos mais importantes autores brasileiros de sua geração. Formado em Direito e Doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o escritor possui uma vigorosa carreira acadêmica, tendo lecionado disciplinas nas universidades de Sorbonne, Toronto, Leipzig e Açores.

Permanências, de Judite Jorge


Permanências, obra de Judite Jorge, nascida em Pontas Negras na ilha do Pico, venceu o prémio “Nunes da Rosa”, do concurso literário Açores/92, promovido pela, então, Secretaria Regional da Educação e Cultura.
            A escrita relata a vivência circular num tempo e num espaço, representando o conformismo de quem se deixa ficar, mas que anseia por partir. Em algumas das personagens, esta atitude coaduna-se com a bruma de muitos dos dias insulares, com todos os “penares” de quem não tem coragem para dar um passo em frente.
            Por vezes, a inquietude esfumaça o ritmo do ilhéu que ambiciosamente sonha com o bulício dos grandes espaços e das dinâmicas citadinas. O anonimato é criticado, mas simultaneamente desejado por quem se sente analisado ao milímetro e acorrentado ao cerco humano do saber, mais do outro do que de si próprio, como se a vida alheia fosse  notícia de dimensão regional.
            Tantas vezes o pensamento leva a personagem à viagem por outras paragens, no entanto, quantas outras e, possivelmente, mais frequentes, são os regressos ao ponto de partida.
            O paradoxo reside, assim, nesse conflito constante entre a necessidade de libertação e o aconchego da rotina e da segurança do que é acolhedor e já conhecido: “Permanece porque não sabe se existe no mundo esse lugar, entre a luz e a obscuridade, sem qualquer palavra, só a respiração dos corpos e o morno arfar das paredes viradas para dentro, onde tudo se orienta para o centro […]” (p.11).
            As idiossincrasias insulares encontram, nas palavras do narrador, reflexos que se transformam através das emoções e se vivem através dos sentidos. Os cheiros, as vivências, as rotinas pitorescas das figuras e dos lugares rurais, ou talvez da imagem de uma ruralidade citadina… diferenças e semelhanças que não encontram um elemento de separação ou de limite questionável.
            A personagem Júlia (re)conhece todos esses elementos, sente-os e vive as circunstâncias de um tempo específico. A transmissão de saberes, “as frases tiradas dos livros da biblioteca itinerante” (acontecimento marcante na vida de tantos ilhéus, e não só!), a comunicação interpessoal, a que é realizada frente a frente no confronto real das relações humanas, fazem parte do quotidiano de Júlia, numa época em que não se imaginava o espaço virtual senão no sonho, ou numa qualquer aventura de ficção científica.
            O núcleo desta narrativa de vida enaltece a constituição, o crescimento e a descoberta de uma personalidade repleta de convicções, de alguém que sabe o que quer e que luta pelos seus ideais, na procura do seu “norte”.
O mar, esse mar imenso, é metáfora da memória, da viagem e da ambicionada distância para quem é da ilha. Porém, o que será uma ilha para um forasteiro, para um habitante de um continente sem fim? Essa é afinal a grande descoberta de António.
Haverá uma ilha em cada um de nós?

Paula Cotter Cabral

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A cor cíclame e os desertos, de Maria de Fátima Borges


Borges, Maria de Fátima, A cor cíclame e os desertos, Lisboa, Cotovia, 1989, 78 páginas.

                Nesta obra, reúnem-se onze estórias de vida, num caleidoscópio de relações jogado no quotidiano possível da existência humana.
                Com tempo e espaço indefinidos e, por isso, intemporais, o núcleo da ação de cada conto constrói-se a partir de uma linguagem profundamente densa e emocional que encerra o universo da reflexão sobre o papel do ser humano, enquanto elo de ligação, no espaço que ocupa na vida (de alguém) e a sua importância no mundo.
A vivência do tempo cinge-se à linguagem da solidão, criando uma atmosfera de neblina emocional que paira sobre as personagens desta obra: “confundo tudo: o que me disseram com aquilo que vou imaginando que teria acontecido para preencher o tempo que me resta. […] Mas aqui será talvez o meu lugar. É como se, apesar de tudo, esperasse.” (p.56).
As personagens surgem como esboço, primam pela indefinição, facto que, simultaneamente, proporciona uma (possível) identificação inquietante do leitor com as figuras desenhadas nos contos. Neste sentido, a expressividade dos contextos relacionais organiza-se sob a égide da ambiguidade, do conhecimento de si e, sobretudo, da necessidade urgente de encontrar um espaço próprio, uma identidade comum num relacionamento a dois, “queríamos um sítio sem gente, onde não houvesse outras respirações […] pois já nessa altura eu sabia que o dia dos outros são eles que o fazem e o vivem à sua maneira que nada tem a ver com a minha em tempo algum” (p.9).
As figuras femininas prevalecem, neste universo, em personagens como Adelina ou Zurília, num complexo diálogo unilateral que se confunde, diversas vezes, com um solilóquio afetivamente perturbante.
No conto «A estátua», a ação centra-se na busca da identidade da pessoa que deu origem a uma estátua situada no meio da praceta. Dada a inexistência de referências sobre a figura representada, procuram-se respostas que, uma vez encontradas, nos fazem realmente pensar sobre a importância do legado indelével do Homem.
A intemporalidade dos textos constrói-se a partir das figuras aí representadas por serem credíveis pela semelhança com o quotidiano de cada ser humano gregário, em qualquer tempo e em qualquer lugar. Basta ouvir “as conversas” das personagens, espreitar os seus pensamentos e, certamente, encontraremos uma projeção provável da nossa existência.
Assim, recuperamos, paralelamente, ao longo da obra, um sentido universal do ser pessoa, uma maneira de sentir o outro e representar (em comunhão ou discórdia) os papéis sociais e emocionais que nos são atribuídos por via do livre arbítrio, para além de os que nos são inexoravelmente impostos.


Paula Cotter Cabral

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Lagoa dos Castores, de Francisco Cota Fagundes

 [N. Agualva, Praia da Vitória, ilha Terceira, a 12.4.1944] Emigrou para os Estados Unidos em 1963, depois de, na sua ilha, ter apenas completado a escola primária e recebido dois anos de explicações de inglês. Depois de três anos de trabalho nas vacarias do Vale de San Joaquín na Califórnia, mudou-se para Los Angeles, tendo frequentado o Los Angeles Valley College e posteriormente a Universidade da Califórnia, em Los Angeles, recebendo aí um duplo Bacharelato em Português e Espanhol e depois um Mestrado em Estudos Luso-Brasileiros, seguido de um Doutoramento em 1976, com uma dissertação subordinada ao tema A Lírica de Fernando Pessoa: Quatro Visões do Tempo. Desde essa data lecciona na Universidade de Massachusetts Amherst, onde é Professor Catedrático de Português, leccionando também língua e literatura espanholas.

Francisco Cota Fagundes in enciclopédia açoriana, DRaC


Álamo Oliveira e Daniel de Sá escrevem sobre a obra de Francisco Cota Fagundes, A lagoa dos Castores.


Mar pela Proa, de Dias de Melo

Mar pela Proa, de Dias de Melo

            Ao (re)editar a obra de Dias de Melo, a Ver Açor prestou um inestimável serviço à cultura açoriana, porquanto o autor ocupa um lugar ímpar na literatura marcada pela açorianidade. Não é, porém, Dias de Melo apenas o “cronista” da saga baleeira, como muito vulgarmente se pensa, sequer tão-somente um escritor que legou à posteridade a “alma açoriana” (embora não sejam estas tarefas menores); é um criador de valor maior no contexto da produção literária não só açoriana mas também nacional. Mar pela Proa, de que diz Daniel de Sá ser “talvez a mais extraordinária das obras [de Dias de Melo]”, com “força bastante para se tornar universal”, está agora ao dispor do público numa edição extremamente cuidada, de inegável bom gosto gráfico – e os bons autores merecem boas encadernações, boa divulgação, trabalho em que a Ver Açor se esmerou.
            Mar pela Proa poder-se-á considerar uma novela (ou um curto romance, dadas as suas poucas mais de 150 páginas), cuja “estória” – que se desenvolve em torno, basicamente, de um episódio – não deixa de ter contornos épicos. Dividido em três partes, que por sua vez se subdividem (a Primeira Parte em dois momentos: Estes são os nossos botes e Amarras partidas, a Segunda Parte em três: Rumo perdido, Nesga de céu na cerração e Duas estrela), sendo que a Terceira Parte contém apenas um momento: Chamas reavivadas, o livro tem tanto de regionalista como (parafraseando Daniel de Sá) de universal. Se são da Calheta do Nesquim os homens que se lançam ao mar, orgulhosos da sua Companhia Nova (companhia formada por baleeiros independentes, donos dos seus botes, sem a outro senhor servirem que não ao companheirismo de homens livres), se falam e agem como gente da(s) ilha(s), não deixam de ser de qualquer lugar ou tempo os sentimentos que perpassam a obra. Por outras palavras, o que há de espacial e temporalmente particularizado nos homens ilhéus de Mar pela Proa é concomitantemente universal, pois soube Dias de Melo mostrar num grupo de homens aquilo que define o Homem – os seus desejos, os seus sonhos, a sua força, a sua debilidade, sobretudo o seu sentido de união e de empenho numa tarefa comum.
            Assim, Mar pela Proa assume, na aventura dos baleeiros arrostados com uma tormenta, uma dimensão verdadeiramente épica. Por um lado, temos a considerar o sentimento de pertença a um grupo e o companheirismo na construção de uma “obra” (a Companhia Nova), por outro, é de relevar batalha do(s) homem(ns) frente aos elementos, num esforço desmedido para salvarem a vida – mas também o sonho (as embarcações). A lição épica só a reconhecemos, todavia, no fim, quando António Marroco (o herói que se destaca por ser o que mais agruras enfrenta até vencer o mar) diz acreditar que é possível o recomeço. De facto, tal como acontece em qualquer epopeia, muitos são os reveses com que tem de se confrontar o Homem, – e na epopeia destes baleeiros há momentos de fraqueza, que gera a desunião. Se uma canoa se perdeu – e com ela vidas – foi, é-nos dito explicitamente, porque “as amarras se partiram”. Porém, o herói – no sentido épico – luta e acredita. O herói que é Manuel Marroco.
            Se Mar pela Proa vive essencialmente de um episódio trágico-marítimo, não deixa de fazer incursões na vida pessoal das personagens, conferindo-lhes (maior) humanidade. Assim, surgem analepses frequentes onde são narrados pequenos episódios das “estórias” particulares de alguns dos homens. Também nestas incursões se destaca Manuel Marroco, de cuja vida – sempre de luta e perseverança – ficamos a saber alguns pormenores. Esta personagem comove e alenta, pois de um homem lutador, pelo sonho comandado e pelo amor aos seus se trata. Uma espécie de paradigma do Homem, sem perder, contudo, a sua individualidade de filho da ilha.
            Mas não só pela “estória” narrada, pelo seu valor testemunhal, se destaca Mar pela Proa. Com efeito, Dias de Melo é senhor de um registo discursivo (ou de vários) esteticamente marcante(s). Assente numa narração feita do surpreender de momentos e de um manejamento hábil e natural do discurso directo, a obra flui pela palavra como se esta tivesse o compasso do próprio mar. Os regionalismos do discurso directo, “apanhados” nas falas das personagens, têm, naturalmente, grande interesse etnográfico – mas, muito mais do que isso, é o ritmo do discurso directo que prende o leitor. Uma palavra ou duas, frases inacabadas, uma reflexão atirada ao vento tempestuoso – tudo isto confere uma plasticidade incomum ao texto de Dias de Melo. Feita de uma excelente intersecção entre narração, descrição e diálogo (ou monólogo), a escrita de Dias de Melo poder-se-á considerar impressionista, no sentido em que capta instantes, sugere impressões. Tal escrita assenta num trabalho da palavra cuidado e ao mesmo tempo, diríamos, natural, isto é, aparentemente fácil. Todavia, há no labor da frase curta (por vezes muito curta) de Dias de Melo um virtuosismo digno de reparo. Trata-se de uma prosa moderna por esse tipo de frase, pelos refrões frequentes (as palavras do louco ou do jovem que fica no mar), pela síntese de ideias expressas em palavras densas.
            Por tudo o que foi dito e pelo imenso que ficou por dizer, Mar pela Proa é uma leitura que vivamente se recomenda. Dias de Melo não é, de forma alguma, apenas um escritor nosso. É um excelente artista da palavra.
                                                                                                         
Paula de Sousa Lima

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Tempo Adiado, de Paula de Sousa Lima


            Foi lançado no dia 15 de Outubro, na Livraria Bertrand, em Ponta Delgada, um livro singular de uma autora cuja evolução tenho seguido com muito interesse e agrado. Tempo Adiado, de Paula Sousa Lima, constitui uma obra de maturidade de alguém que faz da escrita uma paixão maior e um trabalho concentrado de exploração de possibilidades novas de expressão criativa.
            Libertando-se de catalogações simples e restritivas, o livro contém ressonâncias literárias de uma tradição que recua ao legado clássico e judaico-cristã (patente nas citações em epígrafe, nas quais se ilumina a entrada para o universo narrativo a partir de uma fonte trágica – Medeia – e de outra bíblica – o Livro do Êxodo) e recorda momentos felizes da literatura portuguesa.
            Na convergência do legado clássico com a herança judaico-cristã encontramos um elemento comum que nos fornece uma indicação clara do factor que desencadeia a narrativa: a morte criminosa, que desafia a ordem natural da vida ao abater-se sobre os seres mais desprotegidos, inocentes e inspiradores da benevolência humana, as crianças. Na tragédia de Eurípides, a mulher traída vinga-se matando aquela que ocupa o seu lugar, o pai desta e os seus próprios filhos, para que o homem que a traiu sofra de um só golpe uma dor insuportável com a perda de todos os que ama; o episódio do Êxodo anuncia a morte de todos os primogénitos nascidos no Egipto. Somos, assim, preparados para uma narrativa assombrada pela morte de crianças e protagonizada por uma figura feminina complexa, na qual os actos de desmesura tingidos de horror se aliam à coragem da inconformidade ante a ordem patriarcal.
Intuindo uma tragédia de alcance colectivo (assim o sugere a referência à morte dos primogénitos), iniciamo-nos na leitura de uma obra que não só conta uma história como o faz de modo engenhoso e transgressor, ao ponto de se sentir a necessidade de reflexão sobre o tipo de escrita que a expressa.
São vários os momentos em que se cede à necessidade de explicitar a consciência da transgressão. Indissociável da dificuldade do ofício de escrever, da soberania da palavra que nos comanda em vez de ser por nós comandada, a perplexidade perante a classificação da escrita faz-nos lembrar as Viagens na Minha Terra quando, por exemplo, nos deparamos com “O que é isto? Que escrevi? Da tragédia o tema, o tom, mas a estrutura, este texto não tem propriamente estrutura” (p. 140).
A falta de estrutura resulta da articulação de vários modos de representação literária. Convivendo com a música (devido à presença daquilo que podemos chamar refrões – recantos de palavras favoritas a que algumas personagens regressam com frequência e naturalidade), o drama e a lírica; alternando um registo leve, por vezes cómico, com temas pesados (o incesto, a vingança, a culpa, o castigo e a redenção), a palavra literária surge envolta numa cadência musical que amplifica o seu poder expressivo.
O ritmo do livro apoia-se numa utilização engenhosa do tempo. Dotada de centralidade inequívoca, pelo modo como impera na indicação dos títulos dos capítulos, a categoria temporal é um elemento permanente e complexo em Tempo Adiado. Distribuindo-se por duas épocas diferentes (Agosto de 1874 e Agosto de 1975), esta complexidade mostra-se não só na sua especificação estival (parece que tudo o que merece ser contado aconteceu em Agosto de 1874 ou em Agosto de 1975), mas no decurso de nove meses (entre Novembro 1874 e Agosto de 1875, o período de gestação de uma criança), bem como ao longo de 100 anos. Recuado e próximo (reportando-se ao século XIX e ao século XX), estático (espartilhado entre o primeiro e o último dia dum mês (ou “os dias são sempre o mesmo dia”, como se diz na página 49, ou “a dor é sempre a mesma, nada muda, nada se transforma”, p.50), e móvel, ora apresentando-se-nos como “um instante de vida” (p.42), ora escorrendo pelos nove meses que dura a gestação duma criança, ora estendendo-se pelos cem anos que introduzem variações significativas na história, na cultura e na mentalidade, ao estatismo do mês de Agosto (um mês trágico?) opõe-se o dinamismo de um século findo o qual se resolve a tragédia. O tempo que anuncia a morte no compasso dos sinos que dobram é, assim, simultaneamente desconhecido no âmbito da nossa experiência histórica (pois não há notícia de época alguma em que todas as meninas nascessem mortas) e representativo dum dos marcos mais relevantes da história portuguesa: o 25 de Abril de 1974.
Em Agosto de 1975, os padres pregam a doutrina da revolução, os directores são saneados, as propriedades ocupadas e o pessoal doméstico não sabe como reagir às novidades sociais. No interior desta mudança social pulsa ainda uma ciclicidade reiterada, ao nível formal, pelo respeito minucioso à duração de cada capítulo-mês e ao fluir cadenciado de páginas que, à semelhança das horas e dos dias, obedecem também a uma estrutura iterativa, repetindo um padrão formal: a primeira página de cada um destes momentos inicia-se sempre com um apontamento lírico, numa prosa poética que anuncia o que a narrativa contará nas páginas seguintes.
            Renovação mais do que repetição é o resultado desta cadência singular. Se o segundo capítulo afirma que “o princípio é o fim a germinar”, para logo a seguir se dizer “antes do princípio há sempre outro princípio” e se sugerir “talvez o princípio de todos os princípios seja a dor” (p. 40), o resultado de todo este processo só pode ser trágico: a queda, o fim – “depois do princípio nunca mais se recupera a inocência” (p.42). Mas até o fim pode ser um novo princípio. Apetece recordar as palavras que Jean-Luc Godard usou na curta-metragem de divulgação da Viennale de 2008: “La catastrophe… C’est la première strophe… D’un poème… D’amour”. Tempo Adiado pode ser visto como a ilustração literária desta imagem cinemática. Nele uma catástrofe desencadeia uma sucessão de princípios trágicos que culminam com a abolição do fim. Por outras palavras, os princípios derrotam a queda, uma estratégia que transparece até ao nível formal.
Frases interrompidas antes de serem concluídas, e que, portanto, nunca chegam ao fim, de que constitui exemplo a recorrente referência a “Um sentimento que” (p.10), ou “Comentar o tempo, tem feito dias lindos, apesar de” (p.12). Na caracterização de Ester, diz-se que ela é “Feia, magra, com um ar” (p.37) e a recordação do despontar dum amor fica (in)completa assim: “depois conheci o meu homem, que estava a fazer a tropa e” (p.133).
Para além desta estratégia, há opções gráficas que reflectem a abolição dos fins. A abertura infinita da frase, por via do desbravamento de palavras fortes que empalidecem o caminho de papel que têm pela frente, os parágrafos serenamente alinhados à esquerda, sem distracções formais e convencionais, o diálogo descuidando o travessão que habitualmente o sinaliza, são outros tantos sinais de uma escrita que se quer pura, limpa de convenções, sem as abolir por completo; uma escrita que respeita as pausas, mantendo os sinais de pontuação, embora adequando-os ao grau de literacia de cada personagem – uma escrita orgânica, que desafia os limites, abrindo-se à linha, ao papel, ao leitor, o qual é convidado a completar o pensamento, a participar na emoção, a imaginar o “sentimento que”.
Estas são infracções criativas e criadoras, não destrutivas da língua e da ordem, infracções inauguradoras de outra ordem, a ordem do texto artístico, inovador, desconcertante, possuidor duma lógica própria, que abala as certezas, que apresenta outras, mais subtis, dimensões da verdade, para as quais também concorrem as alternâncias na narração e nos diálogos, prosseguindo lado a lado, sem hierarquias, paragens ou cortes. Narrador e personagens encontram-se e desencontram-se, no texto como na vida, por entre palavras e silêncios, confundindo-se, por vezes, e nesta confusão conferindo uma agilidade à leitura que ganha ritmo nas alternâncias nem sempre identificadas, mas sentidas na tinta e na brancura do papel:
“Lia, como vão os seus pais?
A sogra interrompe o silêncio com o assunto menos próprio, devia ter feito um comentário sobre o tempo, um tema inócuo, mas não, que maçada, havia eu de fazer esta pergunta inoportuna” (p. 17).
O narrador cede a vez e a voz, a meio da frase, à personagem que se pensa e se expressa forçando caminho por entre vozes anteriores. Este é um dos aspectos mais recorrentes e bem conseguidos da obra: o regresso aos recantos que abrigam personagens e as suas palavras, as quais ora alternam, ora se cruzam, ora se sobrepõem, ora se afastam e se deixam respirar.
            A renovação contamina a linguagem, libertando-a de imagens fossilizadas e criando imagens fortes, nalguns casos de uma violência quase sacrificial, nas quais a verbalização gráfica de uma visão traumática reverbera no sangue que pinga da galinha degolada ou no ramo de papoilas desfloradas manchando de vermelho o mármore branco.
            O esforço concentrado na escolha das palavras manifesta-se noutros pequenos detalhes: todas as raparigas que vão trabalhar para o casarão têm nomes começados por A (Alcina, Adelaide, Amélia, Adozinda, Arlinda, Angelina, Aurora, Alice, Amparo) – as As representadas pelo artigo definido que se refere ao género feminino são todas integradas num mesmo destino, não só por serem mulheres, mas por serem mulheres incapazes de se opor ao poder masculino.
            Ter filhos – a hipótese maldita que se transforma em maldição real – é vivida pelas figuras femininas do livro de um modo que faz da escrita um lugar privilegiado para a expressão de sentimentos universais. Duas personagens ocupam, neste campo, um lugar de destaque: Sara, no século XIX, e Lia, no século XX, assumem um peso acrescido pelo facto de se dedicarem à escrita (a primeira, uma espécie de diarista a posteriori, procura fixar a memória em papel; a segunda, uma escritora já conhecida, tenta reactivar a ficção). Nas duas, escrever é “não [como] uma terapia”, mas “um imperativo”, com vista, ora a que se possa registar “tudo, tudo” (p.35), ora a “riscar palavras” como “humilhação”, “brancura” ou “silêncio”. A primeira quer lembrar para sempre uma visão que a atormenta; a segunda quer esquecer para sempre uma ausência que a derrota.
Tempo Adiado é, acima de tudo, um livro sobre palavras e o peso que elas têm na nossa vida: “as palavras é que nos procuram, nos encontram, nos possuem, não pode ser ao contrário” (p.60). A certa altura intuímos o poder salvífico da escrita, capaz de transmutar metáforas, de derrotar o fim e de expressar com frescura transgressora a presença duma nova voz literária em Portugal.


Leonor Sampaio

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Pastor das Casas Mortas, de Daniel de Sá

            A mais recente obra ficcional de Daniel de Sá, nas livrarias desde 2007, aborda uma questão preocupante no/do “Portugal profundo” – a desertificação a que, cada vez mais, estão sujeitas pequenas aldeias perdidas no tempo da globalização, neste nosso tempo que é um tempo suspenso nas aldeias onde se diria que simplesmente o tempo parou. As temáticas da solidão, do abandono, do envelhecimento, mas igualmente da perseverança, do amor à terra, estão, assim, retratadas nesta obra de Daniel de Sá.
            A obra surge com a designação explícita de novela, que não questionamos, mas que podia ser igualmente a de romance. Talvez a pouca extensão do livro (noventa e cinco páginas) tenha sido a razão para o classificar como novela. De resto, não temos propriamente a linearidade da novela – como não temos a (não necessária) complexidade de intriga que caracteriza o romance.
            A obra de Daniel de Sá centra-se numa pequena aldeia, cujos habitantes, envelhecidos, vão paulatinamente desaparecendo (partindo para outras paragem ou morrendo), ficando apenas “as casa mortas” e o seu “pastor” – Manuel Cordovão. É esta personagem que dá unidade à estória – que é, afinal e antes de mais, a estória da aldeia, mais do que a estória de Manuel Cordovão.
            Dividida em trinta e um pequenos capítulos – todos eles com um título sugestivo – a novela quase se pode considerar um conjunto de pequenos contos, cada um focando memórias, acontecimentos, vivências, personagens da aldeia em constante e acelerada desertificação. Se alguns desses”contos” não formam uma narrativa completa só por si, só tomando total sentido adentro da obra como conjunto, outros há que funcionam perfeitamente enquanto micro-narrativas. Por outro lado, no conjunto dessas micro-narrativas, pode ler-se não só um tempo (que está a extinguir-se), como a vida do protagonista – Manuel Cordovão. Este permanece completamente sozinho na aldeia, depois de ver partir os amigos, guardando-lhes ciosamente as casas despovoadas, para que a memória, ao menos, se não vá. É a memória que povoa a vida de Manuel Cordovão, na sua insistência para que a aldeia não morra, para contrariar o tempo que nele continua a habitar – como nas casas.
            Desenha-se também, ao longo das micro-narrativas, uma estória de amor – a de Manuel Cordovão e Graça – que, tal como as estórias das casas, fica apenas como memória. Destinado desde o princípio a não se consumar, embora haja um momento de esperança no final (logo gorada), o amor de Manuel Cordovão por Graça permanece, assim como a aldeia permanece – mas apenas em casas desabitadas.
            Obra atenta ao pormenor e ao sentimento (sem ser gritado, antes melancolicamente subjacente a situações), O Pastor das Casas Mortas retrata exemplarmente situações que poderiam ser reais, ou que o são na escrita de Daniel de Sá. É assim que surgem os objectos guardados dentro das “casas mortas”, memória da vida dos seus antigos possuidores, os hábitos dos homens e mulheres que habitaram essas casas, a sua vida (ou fragmentos dela), até, se pode dizer, a sua alma. Ou a alma da aldeia – que Manuel Cordovão teima em não deixar morrer. Se outra virtude não tivesse esta novela, teria esta de ser testemunho de algo que entristece quem vê despovoar-se as aldeias outrora plenas de vida – vida essa patente, na novela, em cada objecto das casa abandonadas, ou não totalmente abandonadas, porquanto ainda têm o seu “pastor”.
            De leitura fácil, não obstante a mestria linguística do autor, esta novela de Daniel de Sá pode considerar-se aliciante pela sua estruturação em micro-narrativas (que não cansam o leitor) e pela captação de sentimentos a que, certamente, o mesmo leitor não ficará alheio. Não se alçou o autor a construir uma obra de criatividade literária inovadora; antes foi pelo caminho seguro de uma estrutura reconhecível e de uma linguagem tendencialmente clássica. Não são defeitos tais opções. Uma linguagem muito escorreita, muitíssimo cuidada (virtudes que vão desaparecendo em muitos escritores ou pseudo-escritores), marcada pela simplicidade e, concomitantemente, por um inequívoco labor estético, coloca seguramente Daniel de Sá num lugar importante não só da literatura açoriana mas da literatura nacional.
            Contudo, eventualmente porque, diz o povo, “santos da casa não fazem milagres”, talvez esta novela não tenha tido entre nós a repercussão que merece. Vendem-se pouco os autores açorianos – preteridos pelas Margaridas Rebelo Pinto deste país mais deserto de cultura do que a aldeia de Manuel Cordovão de habitantes. Só por isso, aqui vai uma sugestão (e uma certeza) – ler esta obra de Daniel de Sá certamente proporcionará um tempo de ameno lazer, de fruição estética e de reflexão a quem dela se aproximar com a vontade de conhecer algo do que não tão poucos escritores açorianos têm para oferecer.
                                                                                          
Paula de Sousa Lima

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Na distância deste tempo, de Marcolino Candeias

Victor Rui Dores, no Faial online, de 17 de fevereiro de 2009,  publicou a recensão Marcolino Candeias – poeta da circunstância? sobre a coletânea Na distância deste tempo, do autor terceirense Marcolino Candeias.


Carlos Reis publicou na Revista Colóquio/Letras a recensão que se transcreve.

MARCOLINO CANDEIAS
NA DISTÂNCIA DESTE TEMPO
Sec. Regional da Educação e Cultura
Angra do Heroísmo / 1984

Da «distância deste tempo» (título emblemático do livro e do poema final) faz-se e alimenta-se esta colectânea, enunciada a partir de uma certa forma de activação da memória poética: memória que é ao mesmo tempo superação da distância e compensação da ausência, mas também forma de permanência. De intensidade lírica, de discreta concentração vivida na intimidade da solidão, é feita essa permanência em que a imagem da Terceira ausente perpassa e deixa a marca do tempo perdido e da angústia silenciosa: «Então o silêncio cresce cada vez mais invadindo as paredes do meu quarto / assim como um bolor que vai nascendo e envolve o lar tomado de abandono» (p.54); um bolor que não pode senão trazer à lembrança palavras de Carlos Oliveira, retomadas por Abelaira: «Os versos / que te digam / a pobreza que somos / o bolor / nas paredes / deste quarto deserto».
Instância fundamental da criação poética, a memória é, nestes versos de Marcolino Candeias, a origem da poesia, origem patenteada no belíssimo «Poema de saudade ardente», quando se evoca o desejo de ficar «formigando sobre o mel da chegada» (p. 25), porque a imagem obsidiante no espírito do poeta é ainda e sempre a da ilha ausente. Uma ilha que traz consigo pessoas, situações, episódios e também os laços afectivos que a todos congraçam: a figura do Pai, também João Vital, Chico Veríssimo e Joe Simas, tornados todos ainda mais distantes por efeito da morte ou da emigração, esta última uma temática de nítido recorte açoriano. Justamente por força da sobrevivência, na memória, destas figuras, a poesia de M. Candeias é também uma poesia do tu, logo feita poesia do nós, graças a esse diálogo com os ausentes que serve ainda para superar uma qualquer forma de saudade passiva e inconsequentemente sentimental, abolida de modo radical deste volume.
No fundo deste cenário recorta-se, pois, a ilha, os seus objectos, espaços e motivos; espécie da Ítaca reconstruída por uma saudade activa, a ilha inspira um regresso sublimado em imagens cuja depuração lírica roça a intemporalidade de certo modo perseguida por toda a poesia: «No cheiro a erva / um sonoro subtil soar de silêncio / brota um crepúsculo de flores esmagadas» (p. 37). Por isso a poesia de Marcolino Candeias passa ao lado da questão (da polémica, se se quiser) da «literatura açoriana»; sem abdicar de um elenco temático marcantemente relacionado com a terra açoriana, a poesia de M. Candeias escapa à armadilha do folclorismo pitoresco: filtrada pelo crivo de uma emoção lírica refinada, esta poesia estende uma ponte firme entre esse elenco temático e a vivência de mitos e temas (a morte, o tempo) tão ancestrais como a própria poesia. Por isso este volume constitui inegavelmente um marco importante na (por ora) breve produção deste jovem poeta.
Carlos Reis

"[Recensão crítica a 'Na Distância Deste Tempo', de Marcolino Candeias]" / Carlos Reis. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 92, Jul. 1986, p. 98-99.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

AUTÓPSIA DE UM MAR DE RUÍNAS, de João de Melo

João de Melo, nascido na Achadinha, S. Miguel, em 1949, é o autor de Autópsia de um mar de ruínas, obra que faz parte da lista de livros sugerida pelo Plano Regional de Leitura, e que é um marco na literatura portuguesa sobre a guerra colonial, na qual João de Melo participou por ter sido colocado em Angola entre 1971 e 1974, como furriel enfermeiro.

Neste atalho poderá ler a comunicação de Maria Manuela da Silva Duarte (Instituto Politécnico da Guarda) sobre a obra, proferida no Colóquio Internacional de Literatura e História, que teve lugar no Porto, em 2004.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

SAUDADE, de Catherine Vaz (1994)

"Saudade" é o primeiro romance de Katherine Vaz, escritora de ascendência portuguesa, natural da Califórnia.

O livro é centrado na história de uma família dos Açores, contada ao longo de duas gerações. Clara, a personagem principal, surda-muda, emigra para a América, após a morte da mãe. Aí recuperará a voz, mas a sua vida conhecerá momentos de grande violência, física e psicológica.

trata-se de uma narrativa "fantástica", entre o assombro e o fascínio, num jogo de múltiplas realidades, onde se enquadram tradições e lendas portuguesas.


Transcreve-se abaixo um excerto do texto de Vamberto Freitas intitulado Voz da Diáspora para Além do Oceano Atlântico, onde é feita referência a este romance. 


(...) Para melhor percebermos o que à frente irei dizer acerca do romance Darling Dead Ones, permitam-me aqui um longo parenteses sobre Saudade, de Katherine Vaz. Trata-se de uma narrativa que provavelmente irá tornar-se paradigmática entre esta geração de escritores lusófonos residentes ou naturais de países fora da nossa tradição linguística e estética. A voz (ou vozes) algures entre o feminino e o feminista faz em Saudade um constante chamamento tanto à mítica de uma comunidade de origem fechada e depois precariamente aberta no seu novo mundo californiano e a uma história ora universalizada ora reduzida às isoladas comunidades das ilhas atlânticas. Perante a tradição e a inércia do grupo e os seus impulsos irrequietos que sempre o levou a navegar, a protagonista de nome Clara vai tomando consciência da sua individualidade, da sua força interior, fazendo da sua mudez real e metafórica um mundo de belezas inesperadas, espalhando a sua ira e ao mesmo tempo o seu amor entre os que lhe tentam fechar o seu destino ou os que lhe devolvem a sua humanidade, a inteireza do seu ser. É uma narrativa de desafios a todos os níveis, recorrendo desde a primeira página a um realismo mágico que o Catolicismo português e as suas crenças facilitam tanto para a libertação como para o amesquinhamento das personagens, sendo uma das quais um padre que faz lembrar nitidamente uma criação de Eça de Queirós, aliás directamente mencionado, ao lado de outras vozes portuguesas em Saudade, muito especialmente Fernando Pessoa. Nada é simples e nada está simplificado neste romance, a autora leva o seu simbolismo particular e o simbolismo universalizado a extremos que, segundo ela própria, requerem provavelmente sucessivos close readings — poderá mesmo ser lido por partes como um longo poema em verso livre. Modernismo literário europeu, realismo mágico, a poetização vivencial e quotidiana da literatura norte-americana, desde Melville aos nossos dias: trata-se naturalmente de uma narrativa polifónica, de vozes e tempos cruzados, mas em que na última secção do livro a linearidade junta tudo e todos em novas viagens de descoberta e viagens simultaneamente de regresso às origens e, por assim dizer, ao futuro. Estranhamente, Saudade quebra com as ansiedades existenciais habituais na literatura contemporânea e devolve às suas personagens centrais a alegria de viver, as certezas profundamente vincadas da junção do passado-outro com o equilíbrio de vida possível numa grande e as mais das vezes aterradora sociedade. Estes são mundos (re)criados pelas forças interiores de cada um, por desejos e vontades deliberadas e atávicas. A narrativa vem da memória histórica de Katherine Vaz e da sua memória pessoal, familiar, de experiências vividas e/ou imaginadas. Saudade é, assim, um romance profundamente americano, mas que um dia poderá vir a ser ensinado nas nossas universidades como talvez sendo também um dos primeiros exemplos duma nova ou outra literatura portuguesa sem fronteiras e sem complexos europeus, um romance da diáspora portuguesa (e mundial) da segunda metade deste século, peça fundamental do que também chamarei aqui de nova ficção metropolitana/antimetropolitana, referência artística às novas realidades criadas pelos maciços movimentos de povos entre países e culturas.
Pense-se, neste mesmo contexto, e agora no que na Europa nos diz respeito, no romance A Melancolia do Geógrafo, de Brigitte Pauline-Neto, a autora luso-francesa. Que estamos perante um novo fenómeno literário "português" não restam dúvidas, e creio que se trata de um fenómeno marcado por uma complexidade narrativa e abrangência temáticas pouco habituais entre nós.
(...)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Fui ao mar buscar laranjas, de Pedro da Silveira


Pedro da Silveira (n. 1922, Fajã Grande, Flores, Açores - m. 2003, Lisboa) é um dos autores açorianos que consta na lista de livros recomendados pelo Plano Regional de Leitura, com a sua obra poética "Fui ao mar buscar laranjas", editada pela DRAC em 1999.
Álamo Oliveira, poeta e ensaísta, traça-lhe o perfil num trabalho publicado no n.º 13 de 2004 do boletim do Núcleo Cultural da Horta.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Mistério do Paço do Milhafre

O Mistério do Paço do Milhafre (1949), de Vitorino Nemésio (1901-1978), é um dos livros recomendados pelo Plano Regional de Leitura. Esta coletânea de contos baseia-se essencialmente em histórias que o autor ouvia quando era criança, e é marcada pelo uso de regionalismos.

Paulo Meneses, da Universidade dos Açores, no âmbito das atvidades do I Congresso do Seminário Internacional de Estudos Nemesianos, apresentou o seguinte texto O Mistério do Paço do Milhafre: Uma poética da oralidade.


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Lista de livros recomendados pelo PRL

O Plano Regional de Leitura (PRL) surge como complemento do Plano Nacional, contemplando obras de autores ou de temática açoriana que não estejam incluídas na lista nacional.

As obras recomendadas dirigem-se ao público em geral, sem especificação de níveis etários ou escolares. Deixa-se assim aos educadores a missão da escolha, de entre estas ou, obviamente, outras obras de interesse para o desenvolvimento intelectual, social e ético dos mais jovens, aquelas que julguem mais adequadas à sua idade mental e ao seu estádio cultural.

Lista de livros