Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ah! Mònim dum Corisco!..., de Onésimo Teotónio Almeida


Ah! Mònim dum Corisco!..., de Onésimo Teotónio Almeida:
o triunfo e a derrota do emigrante açoriano

por Mónica Serpa Cabral - Universidade de Aveiro (Doutoranda)


Exímio conhecedor da comunidade lusófona existente na costa leste dos Estados Unidos, Onésimo Teotónio Almeida publicou, em 1978, uma obra dramática composta por curtas peças de um acto, que foca os efeitos da emigração. Ah! Mònim dum Corisco!... contém histórias simples, unificadas por um mesmo tema, vividas por seres que se debatem consigo próprios, com um mundo desconhecido, com uma língua diferente, com novos valores e normas de comportamento, com condições de trabalho adversas, com vista a uma adaptação ao espaço controverso e complexo da L(USA)lândia.

Definido pelo próprio autor como «uma porção de Portugal rodeada de América por todos os lados» (Almeida, 1987: 7), o mundo l(USA)landês é uma realidade marginal, resultante da fusão de duas culturas: a portuguesa, nomeadamente, a açoriana, e a americana. Aliás, o título da obra aponta para uma consequência dessa simbiose cultural: o modo de falar do emigrante, assente na transferência de elementos de uma língua para a outra e na criação de novas palavras, como «mònim», referente a dinheiro, o elemento motivador da partida, o objecto da determinação ambiciosa do emigrante. No entanto, como essa obsessão de enriquecer passa pela aceitação de trabalhos árduos, monótonos e desprezíveis e pela dolorosa saudade da terra natal, o «mònim» é qualificado de «corisco», isto é, malvado, maldito, ruim. Focando situações cómicas retiradas do quotidiano, estes textos provocam o riso, através da ironia, da sátira, da caricatura, e desempenham, ao mesmo tempo, uma função ideológico-social, cumprindo a conhecida máxima latina: «ridendo castigat mores».

para continuar a ler, clique aqui em Forma Breve, n. 5 (2007)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dez Regressos, de Nuno Costa Santos


Dez Regressos na criação literária de Nuno Costa Santos: uma outra visão
por Claudia Keenan Gelb



RESUMO
Este artigo visa defender a ideia de que a obra Dez regressos, de Nuno Costa Santos, é um romance e não um livro de contos como aparenta ser à primeira vista. Dez regressos é de um gênero híbrido, em que as fronteiras são muito tênues, o que é cada vez mais recorrente na literatura produzida nos dias de hoje. E também porque, como no romance, não é o desfecho que interessa, e sim todo o percurso dos acontecimentos, deixam-se em aberto as diversas possibilidades de leitura que essa obra provoca.

CONTEÚDO
(...)
Nuno Costa Santos  escolheu como pano de fundo as  mazelas  sofridas  pelo ser  humano no dia-a-dia. As
personagens do livro têm problemas (ou conflitos) diferentes, mas todas procuram, muitas vezes em desespero, o amor e a felicidade. A temática da busca (ou regresso) por momentos afortunados, em que a existência não era um fardo e um eterno arrastar de correntes, pauta cada uma das ações dos tipos apresentados no romance, questão a qual também aludiram Henry James (5) (1995) e Todorov (6) (1970). Desiludidos, eles estão sempre a ir ao encontro de alguém muito especial, como se essa perseguição implacável fosse a redenção final.
(...)

para continuar a ler aqui Dez regressos na criação literária de Nuno Costa Santos: uma outra visão


O Terceiro Servo, de Joel Neto


O Terceiro Servo
ROMANCE, Editorial Presença, 2000



in Joel Neto - Crónicas

Miguel Barcelos, jornalista nascido nos Açores no ano da Revolução de Abril, lê num jornal a notícia do assassinato de um velho amigo. Decidido a investigar o sucedido, parte para os Açores. A viagem no espaço é também uma viagem no tempo: um longo percurso de confrontação interior. Entre a recordação das relações entre ele e o morto e as divagações sobre si próprio, Miguel confronta Açores e Lisboa, a cidade onde vive na convicção de que triunfou. Mas outras questões se interpõem. Amor, relações sociais, pedofilia, o fim do milénio, a revolução, o futebol, a economia e até mesmo a fúria dos elementos naturais – tudo se mistura, abalando profundamente as convicções do protagonista. No fim, Miguel opta pelo cómodo caminho da ignorância. À semelhança do terceiro servo da parábola bíblica, prefere fechar os olhos ao desafio que a vida lhe lançou em nome de uma estabilidade falsa mas imediata. Afinal, o jornalismo é o máximo a que pode ambicionar, o que já por si implica a soma possível de toda a sabedoria e de toda a ignorância do mundo – e sobretudo uma visão desdenhosa sobre o lado superficial das coisas, num impulso de síntese enganador mas assumido.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Que paisagem apagarás, de Urbano Bettencourt


Que paisagem apagarás,
     de Urbano Bettencourt 

por Victor Rui Dores in Faial Online15 de setembro de 2010



     Urbano Bettencourt é o rigor e a busca incessante da palavra exacta e essencial. Poeta, filólogo, professor, ensaísta (especialista em literaturas insulares), criador literário, homem de pensamento, este picaroto habita a palavra e é por ela habitado – na perspectiva nemesiana de quem, leccionando e escrevendo, se desfaz em linguagem.

     O seu último livro, Que paisagem apagarás (Publiçor, Ponta Delgada, 2010), que reúne vários textos dispersos por diferentes publicações, alguns em suporte electrónico, ao lado de outros ainda inéditos, é um verdadeiro deleite intelectual.
     Atravessadas por um sopro poético, estamos perante um conjunto de narrativas que transfiguram a realidade pelo toque da ficção, balançando entre o real e o imaginário. Temos descrições que são evocações e que tanto se soltam na dinâmica dispersiva da viagem, como se prendem à ilha – a real e a sonhada.

     Cronista de jornadas, o narrador assume, desde logo, a dupla condição de residente e viajante que, atenta e argutamente observa, reflecte e ironiza o real. Não se trata, porém, de uma viagem que se aventura para longe, ao encontro do Outro e do diverso, isto é, não é uma viagem em espiral segundo a expressão emblemática de Xavier de Maistre, Voyage autour de ma Chambre, nem as Viagens garrettianas são para aqui chamadas.

     Em tempo de “globalização galopante”, Que paisagem apagarás impõe-se como expressão da viagem pela literatura, já que esta é uma escrita marcada pela afectividade que resulta de experiências vividas, sentidas e sonhadas pelo seu autor. Acima de tudo, reflexão sobre a condição humana e viagem pela memória – por exemplo, a memória (magoadíssima) da Guerra Colonial.

     A depuração passa aqui por uma negação do acessório, do ornamento, da retórica. “Noite” e “Antes da noite” são duas narrativas de excelência literária. O texto “O comboio inexistente”, mais desenvolvido, daria uma bela peça de teatro. E há este dado surpreendente: em vários momentos surge-nos um tal Ernesto Gregório, interposto narrador, a funcionar como uma espécie de alter-ego do autor.

     Mas a cereja em cima do bolo está na segunda parte do livro: “Breves, brevíssimas e (des)aforismos”. Em curtíssimos e apetecíveis textos, eivados de humor, escárnio e maldizer, o autor lança olhares sarcásticos a uma certa mundividência social, cultural e literária.
     Por conseguinte, estamos na presença de um Urbano Bettencourt no seu melhor, isto é, na sua fase mais experimentada, consistente, criativa e fecunda.

....................................................


Breve apontamento sobre “Que Paisagem Apagarás” 
de Urbano Bettencourt

por Eduardo Bettencourt Pinto in Palavras no branco, 12 de outubro de 2010


Ocorre-me uma manhã luminosa no Funchal há uns anos atrás. À mesa do pequeno-almoço estavam  o Urbano Bettencourt,  o Miguel Moniz e eu. O sol, que parecia brotar das profundezas do mar, tocava os vidros da sala com um esplendor surreal. Era um relâmpago cristalino a banhar-se devagar nos copos de sumo de laranja. Descansava, enfim, em delícias mornas, no branco muito alvo da toalha de mesa.

A manhã era bela como são, aliás, todas as manhãs sob a pacificação dos lugares onde reverbera a poesia. A água azul da distância levava um barco, muito lentamente, num rumo de luz.

As vozes e os rostos dos nossos afectos fazem de um deserto um espaço habitável. Se estamos, como naquele momento, perante a sublimidade, então a circunstância de uma euforia ganha o perfil de um postal ou de um quadro de ressonâncias indeléveis.

Esta associação de ideias e memórias ocorreu-me enquanto lia o mais recente livro de Urbano Bettencourt, Que Paisagem Apagarás. Estaquei ante esta passagem:

“E dei comigo a pensar como será bom saber que, de cada vez que sucumbirmos ao íntimo chamamento do mar, uma voz de mulher há-de erguer-se para chorar-nos o destino e a perdição.”

Há, no conjunto dos textos que permeiam as suas páginas (desde a ficção à nota de viagem, por exemplo) uma harmoniosa hibridez de géneros literários. A leitura reparte-se por vários registos, é certo. No entanto, não se antagonizam; perfilam-se numa unidade exemplar que salienta o cuidado com que o autor pôs na sua organização. Não obstante os seus contornos próprios, os textos revelam um vector comum naquilo que é a marca inconfundível da mais do que afirmada escrita de UB: o estilo sóbrio e rigoroso. Na sua reverberação semântica encontramos segurança, finura no estilo,  e um perfil intelectual abrangente, tangível e coeso.

O devir inequívoco da sua mecânica criativa resulta em textos depurados, poéticos em certos momentos, e em cujo vínculo descobrimos ironia, humor, subtileza e elegância. E, derradeiramente, a sua emocionada humanidade.

Este título de Urbano Bettencourt, que se apresenta como um novo marco na sua já extensa bibliografia (poesia, narrativa e ensaio), revela um ficcionista de primeira água. Atente-se, por exemplo, neste diálogo entre Antero de Quental e Del Giudice no conto O comboio inexistente:

“ – Vou à procura de uma mulher que saiu de casa atrás de um verso de treze sílabas  – declarou Del Giudice, enquanto tentava surpreender no rosto do outro o efeito dessa confissão.
– Não creio que seja uma boa razão para viajar.
– A da mulher ou a minha?
– A sua. Perseguir um verso pode ser um projecto de vida, mesmo que se trate de um verso funesto. Mas lançar-se no encalço de uma mulher por causa disso já me parece uma intriga de novela de mistério.”

Perante a mestria narrativa patenteada neste novo título de Urbano Bettencourt, fica no ar esta pergunta e este desejo: Para quando um romance? Que Paisagem Apagarás é um livro delicioso que nos proporciona grandes momentos de prazer, nos comove, deslumbra e entretém.


..................................................


notas de apresentação de QUE PAISAGEM APAGARÁS, de Urbano Bettencourt

por Carlos Alberto Machado

São Roque do Pico, 30 de Julho de 2010

...................................................


Paisagens da memória: sobre o livro
Que paisagem apagarás, de Urbano Bettencourt

por Luiz Antonio de Assis Brasil, 2011




quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Menino Perdido, de Susana Teles Margarido


Brites Araújo, no Correio dos Açores do dia 9 de novembro de 2008, publicou uma recensão sobre "O Menino Perdido", de Susana Teles Margarido, a qual pode ser lida aqui.


Era uma vez uma ilha muito verde, erguida no meio de um oceano muito azul.

É desta forma que tem início a história que Susana Teles Margarido nos conta n’O Menino Perdido, o seu mais recente livro para crianças, apresentado aos leitores de Ponta Delgada, nas suas versões portuguesa e inglesa, no passado dia 31 de Outubro.

E “Era uma vez…” é tudo o que basta para que a memória corra a recuperar esse outro tempo em que, ansiosos, esperávamos o ritual do conto, ou a viagem deliciosamente solitária da sua leitura. Nesses momentos de encantamento, em que fazíamos silêncio, ou nos “sozinhávamos” (como diria Mia Couto) para melhor nos enchermos de maravilhoso e de fantástico, redimensionávamos a nossa própria geografia e o mundo já não cabia à nossa volta. A leitura e/ou a narrativa tinham a capacidade de o estender para além dos seus limites conhecidos, transportando-nos para uma outra dimensão de nós mesmos, e plasmando o que éramos então de forma tão indelével que hoje funcionam como espelho onde buscamos reflexo do que efectivamente somos.

Os mundos maravilhosos e fantásticos que Susana Teles Margarido (re)cria n’O Menino Perdido, como noutros contos infanto-juvenis de que é autora, estão povoados de personagens, situações (a que não tem faltado a viagem iniciática) e criaturas que se inscrevem no imaginário e na tradição da literatura para crianças. Sereias e monstros marinhos, plantas aquáticas com poderes mágicos, animais que falam, reinos submarinos e reinos de gelo, vacas e golfinhos voadores, fadas e duendes, pais-natal para cada mês do ano, são alguns exemplos do fantástico e do maravilhoso que preenchem as obras desta autora.
No entanto, se, por um lado, eles constituem o elemento charneira desses universos literários, por outro, são sempre mediados por um real geográfico que tem nas ilhas dos Açores o seu cais de partida e de regresso. E é neste real geográfico que se cumpre, no caso d’O Menino Perdido, como na obra que o antecedeu (Luna e as Ilhas Fantásticas dos Açores), a função pedagógica dos seus livros. E essa, que é explícita em Luna, ganha n’O Menino Perdido a tonalidade subtil do amor à terra, de um amor que resgata do estigma, da pequenez, do abandono, e nos aponta a necessidade de a inscrevermos no imaginário dos contos para que ela se apresente, aos nossos olhos e aos nossos corações, com o encanto, a magia e a beleza das coisas que guardamos e por que zelamos com carinho.


Assim, a possibilidade de haver sereias a povoar o litoral de Rabo de Peixe, risível na realidade que conhecemos, extrapola do universo fictício d’O Menino Perdido para o real empírico como metáfora do potencial implícito nas coisas à nossa volta: potencial de beleza, de grandiosidade, de inclusão e de pertença. Trata-se, afinal, da possibilidade de, como disse no início, pela literatura, redimensionarmos a nossa própria geografia para que, no fim, aquilo que somos, ou o que fomos sendo, se alargue sempre mais e caiba, por inteiro e por direito, no imenso e maravilhoso universo da Coisa Humana; seja ela tão real e palpável como o cais de Rabo de Peixe, ou tão impalpável, mas nem por isso irrealista, como este menino perdido que a autora trouxe agora a público.

É já um lugar comum afirmar que existe uma criança em cada um de nós, adultos. Não estou certa de que isto possa ser aplicado indiscriminadamente, mas pode-se afirmar que a criança que há uns quantos anos atrás lia e/ou ouvia histórias de encantar, está presente na narradora d’ O Menino Perdido, como nas dos outros contos infantis de que Susana é autora, e que está, sobretudo, presente na forma maravilhada com que nos vai narrando esses mundos tão extraordinários.

E porque nenhuma produção literária digna desse nome menospreza o seu objecto ou o seu leitor, tenha este a idade que tiver, é de toda a justiça referir que a autora, em circunstância alguma, cedeu à voz de falsete, no que esta representa de depreciativo no contexto da literatura infanto-juvenil, demonstrando, desta forma, o respeito e a seriedade que os seus potenciais leitores lhe merecem.

O Menino Perdido leva-nos numa maravilhosa e fantástica viagem submarina a latitudes e a reinos apenas sonhadas, de que as ilustrações de Fedra Santos, artista nortenha cujo currículo inclui a ilustração de autores como Sophia de Mellho Breyner Andresen e Nicolás Guillen, são um complemento pictórico de qualidade assinalável, ao interpretarem não só o imaginário infantil, como a singularidade do espaço geográfico de referência, numa adesão inequívoca ao universo proposto pelo livro.

Susana Teles Margarido convida-nos, então, adultos e crianças, a embarcarmos rumo aos mundos fantásticos do nosso imaginário, convite a que basta responder com a nossa vontade de nos enchermos de infância e com a nossa adesão à senha mágica: “As fadas, eu creio nelas […]”.

Brites Araújo, Correio dos Açores, 9 de novembro de 2008

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A cor cíclame e os desertos, de Maria de Fátima Borges


Borges, Maria de Fátima, A cor cíclame e os desertos, Lisboa, Cotovia, 1989, 78 páginas.

                Nesta obra, reúnem-se onze estórias de vida, num caleidoscópio de relações jogado no quotidiano possível da existência humana.
                Com tempo e espaço indefinidos e, por isso, intemporais, o núcleo da ação de cada conto constrói-se a partir de uma linguagem profundamente densa e emocional que encerra o universo da reflexão sobre o papel do ser humano, enquanto elo de ligação, no espaço que ocupa na vida (de alguém) e a sua importância no mundo.
A vivência do tempo cinge-se à linguagem da solidão, criando uma atmosfera de neblina emocional que paira sobre as personagens desta obra: “confundo tudo: o que me disseram com aquilo que vou imaginando que teria acontecido para preencher o tempo que me resta. […] Mas aqui será talvez o meu lugar. É como se, apesar de tudo, esperasse.” (p.56).
As personagens surgem como esboço, primam pela indefinição, facto que, simultaneamente, proporciona uma (possível) identificação inquietante do leitor com as figuras desenhadas nos contos. Neste sentido, a expressividade dos contextos relacionais organiza-se sob a égide da ambiguidade, do conhecimento de si e, sobretudo, da necessidade urgente de encontrar um espaço próprio, uma identidade comum num relacionamento a dois, “queríamos um sítio sem gente, onde não houvesse outras respirações […] pois já nessa altura eu sabia que o dia dos outros são eles que o fazem e o vivem à sua maneira que nada tem a ver com a minha em tempo algum” (p.9).
As figuras femininas prevalecem, neste universo, em personagens como Adelina ou Zurília, num complexo diálogo unilateral que se confunde, diversas vezes, com um solilóquio afetivamente perturbante.
No conto «A estátua», a ação centra-se na busca da identidade da pessoa que deu origem a uma estátua situada no meio da praceta. Dada a inexistência de referências sobre a figura representada, procuram-se respostas que, uma vez encontradas, nos fazem realmente pensar sobre a importância do legado indelével do Homem.
A intemporalidade dos textos constrói-se a partir das figuras aí representadas por serem credíveis pela semelhança com o quotidiano de cada ser humano gregário, em qualquer tempo e em qualquer lugar. Basta ouvir “as conversas” das personagens, espreitar os seus pensamentos e, certamente, encontraremos uma projeção provável da nossa existência.
Assim, recuperamos, paralelamente, ao longo da obra, um sentido universal do ser pessoa, uma maneira de sentir o outro e representar (em comunhão ou discórdia) os papéis sociais e emocionais que nos são atribuídos por via do livre arbítrio, para além de os que nos são inexoravelmente impostos.


Paula Cotter Cabral

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Lagoa dos Castores, de Francisco Cota Fagundes

 [N. Agualva, Praia da Vitória, ilha Terceira, a 12.4.1944] Emigrou para os Estados Unidos em 1963, depois de, na sua ilha, ter apenas completado a escola primária e recebido dois anos de explicações de inglês. Depois de três anos de trabalho nas vacarias do Vale de San Joaquín na Califórnia, mudou-se para Los Angeles, tendo frequentado o Los Angeles Valley College e posteriormente a Universidade da Califórnia, em Los Angeles, recebendo aí um duplo Bacharelato em Português e Espanhol e depois um Mestrado em Estudos Luso-Brasileiros, seguido de um Doutoramento em 1976, com uma dissertação subordinada ao tema A Lírica de Fernando Pessoa: Quatro Visões do Tempo. Desde essa data lecciona na Universidade de Massachusetts Amherst, onde é Professor Catedrático de Português, leccionando também língua e literatura espanholas.

Francisco Cota Fagundes in enciclopédia açoriana, DRaC


Álamo Oliveira e Daniel de Sá escrevem sobre a obra de Francisco Cota Fagundes, A lagoa dos Castores.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Na distância deste tempo, de Marcolino Candeias

Victor Rui Dores, no Faial online, de 17 de fevereiro de 2009,  publicou a recensão Marcolino Candeias – poeta da circunstância? sobre a coletânea Na distância deste tempo, do autor terceirense Marcolino Candeias.


Carlos Reis publicou na Revista Colóquio/Letras a recensão que se transcreve.

MARCOLINO CANDEIAS
NA DISTÂNCIA DESTE TEMPO
Sec. Regional da Educação e Cultura
Angra do Heroísmo / 1984

Da «distância deste tempo» (título emblemático do livro e do poema final) faz-se e alimenta-se esta colectânea, enunciada a partir de uma certa forma de activação da memória poética: memória que é ao mesmo tempo superação da distância e compensação da ausência, mas também forma de permanência. De intensidade lírica, de discreta concentração vivida na intimidade da solidão, é feita essa permanência em que a imagem da Terceira ausente perpassa e deixa a marca do tempo perdido e da angústia silenciosa: «Então o silêncio cresce cada vez mais invadindo as paredes do meu quarto / assim como um bolor que vai nascendo e envolve o lar tomado de abandono» (p.54); um bolor que não pode senão trazer à lembrança palavras de Carlos Oliveira, retomadas por Abelaira: «Os versos / que te digam / a pobreza que somos / o bolor / nas paredes / deste quarto deserto».
Instância fundamental da criação poética, a memória é, nestes versos de Marcolino Candeias, a origem da poesia, origem patenteada no belíssimo «Poema de saudade ardente», quando se evoca o desejo de ficar «formigando sobre o mel da chegada» (p. 25), porque a imagem obsidiante no espírito do poeta é ainda e sempre a da ilha ausente. Uma ilha que traz consigo pessoas, situações, episódios e também os laços afectivos que a todos congraçam: a figura do Pai, também João Vital, Chico Veríssimo e Joe Simas, tornados todos ainda mais distantes por efeito da morte ou da emigração, esta última uma temática de nítido recorte açoriano. Justamente por força da sobrevivência, na memória, destas figuras, a poesia de M. Candeias é também uma poesia do tu, logo feita poesia do nós, graças a esse diálogo com os ausentes que serve ainda para superar uma qualquer forma de saudade passiva e inconsequentemente sentimental, abolida de modo radical deste volume.
No fundo deste cenário recorta-se, pois, a ilha, os seus objectos, espaços e motivos; espécie da Ítaca reconstruída por uma saudade activa, a ilha inspira um regresso sublimado em imagens cuja depuração lírica roça a intemporalidade de certo modo perseguida por toda a poesia: «No cheiro a erva / um sonoro subtil soar de silêncio / brota um crepúsculo de flores esmagadas» (p. 37). Por isso a poesia de Marcolino Candeias passa ao lado da questão (da polémica, se se quiser) da «literatura açoriana»; sem abdicar de um elenco temático marcantemente relacionado com a terra açoriana, a poesia de M. Candeias escapa à armadilha do folclorismo pitoresco: filtrada pelo crivo de uma emoção lírica refinada, esta poesia estende uma ponte firme entre esse elenco temático e a vivência de mitos e temas (a morte, o tempo) tão ancestrais como a própria poesia. Por isso este volume constitui inegavelmente um marco importante na (por ora) breve produção deste jovem poeta.
Carlos Reis

"[Recensão crítica a 'Na Distância Deste Tempo', de Marcolino Candeias]" / Carlos Reis. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 92, Jul. 1986, p. 98-99.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

AUTÓPSIA DE UM MAR DE RUÍNAS, de João de Melo

João de Melo, nascido na Achadinha, S. Miguel, em 1949, é o autor de Autópsia de um mar de ruínas, obra que faz parte da lista de livros sugerida pelo Plano Regional de Leitura, e que é um marco na literatura portuguesa sobre a guerra colonial, na qual João de Melo participou por ter sido colocado em Angola entre 1971 e 1974, como furriel enfermeiro.

Neste atalho poderá ler a comunicação de Maria Manuela da Silva Duarte (Instituto Politécnico da Guarda) sobre a obra, proferida no Colóquio Internacional de Literatura e História, que teve lugar no Porto, em 2004.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

SAUDADE, de Catherine Vaz (1994)

"Saudade" é o primeiro romance de Katherine Vaz, escritora de ascendência portuguesa, natural da Califórnia.

O livro é centrado na história de uma família dos Açores, contada ao longo de duas gerações. Clara, a personagem principal, surda-muda, emigra para a América, após a morte da mãe. Aí recuperará a voz, mas a sua vida conhecerá momentos de grande violência, física e psicológica.

trata-se de uma narrativa "fantástica", entre o assombro e o fascínio, num jogo de múltiplas realidades, onde se enquadram tradições e lendas portuguesas.


Transcreve-se abaixo um excerto do texto de Vamberto Freitas intitulado Voz da Diáspora para Além do Oceano Atlântico, onde é feita referência a este romance. 


(...) Para melhor percebermos o que à frente irei dizer acerca do romance Darling Dead Ones, permitam-me aqui um longo parenteses sobre Saudade, de Katherine Vaz. Trata-se de uma narrativa que provavelmente irá tornar-se paradigmática entre esta geração de escritores lusófonos residentes ou naturais de países fora da nossa tradição linguística e estética. A voz (ou vozes) algures entre o feminino e o feminista faz em Saudade um constante chamamento tanto à mítica de uma comunidade de origem fechada e depois precariamente aberta no seu novo mundo californiano e a uma história ora universalizada ora reduzida às isoladas comunidades das ilhas atlânticas. Perante a tradição e a inércia do grupo e os seus impulsos irrequietos que sempre o levou a navegar, a protagonista de nome Clara vai tomando consciência da sua individualidade, da sua força interior, fazendo da sua mudez real e metafórica um mundo de belezas inesperadas, espalhando a sua ira e ao mesmo tempo o seu amor entre os que lhe tentam fechar o seu destino ou os que lhe devolvem a sua humanidade, a inteireza do seu ser. É uma narrativa de desafios a todos os níveis, recorrendo desde a primeira página a um realismo mágico que o Catolicismo português e as suas crenças facilitam tanto para a libertação como para o amesquinhamento das personagens, sendo uma das quais um padre que faz lembrar nitidamente uma criação de Eça de Queirós, aliás directamente mencionado, ao lado de outras vozes portuguesas em Saudade, muito especialmente Fernando Pessoa. Nada é simples e nada está simplificado neste romance, a autora leva o seu simbolismo particular e o simbolismo universalizado a extremos que, segundo ela própria, requerem provavelmente sucessivos close readings — poderá mesmo ser lido por partes como um longo poema em verso livre. Modernismo literário europeu, realismo mágico, a poetização vivencial e quotidiana da literatura norte-americana, desde Melville aos nossos dias: trata-se naturalmente de uma narrativa polifónica, de vozes e tempos cruzados, mas em que na última secção do livro a linearidade junta tudo e todos em novas viagens de descoberta e viagens simultaneamente de regresso às origens e, por assim dizer, ao futuro. Estranhamente, Saudade quebra com as ansiedades existenciais habituais na literatura contemporânea e devolve às suas personagens centrais a alegria de viver, as certezas profundamente vincadas da junção do passado-outro com o equilíbrio de vida possível numa grande e as mais das vezes aterradora sociedade. Estes são mundos (re)criados pelas forças interiores de cada um, por desejos e vontades deliberadas e atávicas. A narrativa vem da memória histórica de Katherine Vaz e da sua memória pessoal, familiar, de experiências vividas e/ou imaginadas. Saudade é, assim, um romance profundamente americano, mas que um dia poderá vir a ser ensinado nas nossas universidades como talvez sendo também um dos primeiros exemplos duma nova ou outra literatura portuguesa sem fronteiras e sem complexos europeus, um romance da diáspora portuguesa (e mundial) da segunda metade deste século, peça fundamental do que também chamarei aqui de nova ficção metropolitana/antimetropolitana, referência artística às novas realidades criadas pelos maciços movimentos de povos entre países e culturas.
Pense-se, neste mesmo contexto, e agora no que na Europa nos diz respeito, no romance A Melancolia do Geógrafo, de Brigitte Pauline-Neto, a autora luso-francesa. Que estamos perante um novo fenómeno literário "português" não restam dúvidas, e creio que se trata de um fenómeno marcado por uma complexidade narrativa e abrangência temáticas pouco habituais entre nós.
(...)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Fui ao mar buscar laranjas, de Pedro da Silveira


Pedro da Silveira (n. 1922, Fajã Grande, Flores, Açores - m. 2003, Lisboa) é um dos autores açorianos que consta na lista de livros recomendados pelo Plano Regional de Leitura, com a sua obra poética "Fui ao mar buscar laranjas", editada pela DRAC em 1999.
Álamo Oliveira, poeta e ensaísta, traça-lhe o perfil num trabalho publicado no n.º 13 de 2004 do boletim do Núcleo Cultural da Horta.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Mistério do Paço do Milhafre

O Mistério do Paço do Milhafre (1949), de Vitorino Nemésio (1901-1978), é um dos livros recomendados pelo Plano Regional de Leitura. Esta coletânea de contos baseia-se essencialmente em histórias que o autor ouvia quando era criança, e é marcada pelo uso de regionalismos.

Paulo Meneses, da Universidade dos Açores, no âmbito das atvidades do I Congresso do Seminário Internacional de Estudos Nemesianos, apresentou o seguinte texto O Mistério do Paço do Milhafre: Uma poética da oralidade.


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Lista de livros recomendados pelo PRL

O Plano Regional de Leitura (PRL) surge como complemento do Plano Nacional, contemplando obras de autores ou de temática açoriana que não estejam incluídas na lista nacional.

As obras recomendadas dirigem-se ao público em geral, sem especificação de níveis etários ou escolares. Deixa-se assim aos educadores a missão da escolha, de entre estas ou, obviamente, outras obras de interesse para o desenvolvimento intelectual, social e ético dos mais jovens, aquelas que julguem mais adequadas à sua idade mental e ao seu estádio cultural.

Lista de livros