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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Que paisagem apagarás, de Urbano Bettencourt


Que paisagem apagarás,
     de Urbano Bettencourt 

por Victor Rui Dores in Faial Online15 de setembro de 2010



     Urbano Bettencourt é o rigor e a busca incessante da palavra exacta e essencial. Poeta, filólogo, professor, ensaísta (especialista em literaturas insulares), criador literário, homem de pensamento, este picaroto habita a palavra e é por ela habitado – na perspectiva nemesiana de quem, leccionando e escrevendo, se desfaz em linguagem.

     O seu último livro, Que paisagem apagarás (Publiçor, Ponta Delgada, 2010), que reúne vários textos dispersos por diferentes publicações, alguns em suporte electrónico, ao lado de outros ainda inéditos, é um verdadeiro deleite intelectual.
     Atravessadas por um sopro poético, estamos perante um conjunto de narrativas que transfiguram a realidade pelo toque da ficção, balançando entre o real e o imaginário. Temos descrições que são evocações e que tanto se soltam na dinâmica dispersiva da viagem, como se prendem à ilha – a real e a sonhada.

     Cronista de jornadas, o narrador assume, desde logo, a dupla condição de residente e viajante que, atenta e argutamente observa, reflecte e ironiza o real. Não se trata, porém, de uma viagem que se aventura para longe, ao encontro do Outro e do diverso, isto é, não é uma viagem em espiral segundo a expressão emblemática de Xavier de Maistre, Voyage autour de ma Chambre, nem as Viagens garrettianas são para aqui chamadas.

     Em tempo de “globalização galopante”, Que paisagem apagarás impõe-se como expressão da viagem pela literatura, já que esta é uma escrita marcada pela afectividade que resulta de experiências vividas, sentidas e sonhadas pelo seu autor. Acima de tudo, reflexão sobre a condição humana e viagem pela memória – por exemplo, a memória (magoadíssima) da Guerra Colonial.

     A depuração passa aqui por uma negação do acessório, do ornamento, da retórica. “Noite” e “Antes da noite” são duas narrativas de excelência literária. O texto “O comboio inexistente”, mais desenvolvido, daria uma bela peça de teatro. E há este dado surpreendente: em vários momentos surge-nos um tal Ernesto Gregório, interposto narrador, a funcionar como uma espécie de alter-ego do autor.

     Mas a cereja em cima do bolo está na segunda parte do livro: “Breves, brevíssimas e (des)aforismos”. Em curtíssimos e apetecíveis textos, eivados de humor, escárnio e maldizer, o autor lança olhares sarcásticos a uma certa mundividência social, cultural e literária.
     Por conseguinte, estamos na presença de um Urbano Bettencourt no seu melhor, isto é, na sua fase mais experimentada, consistente, criativa e fecunda.

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Breve apontamento sobre “Que Paisagem Apagarás” 
de Urbano Bettencourt

por Eduardo Bettencourt Pinto in Palavras no branco, 12 de outubro de 2010


Ocorre-me uma manhã luminosa no Funchal há uns anos atrás. À mesa do pequeno-almoço estavam  o Urbano Bettencourt,  o Miguel Moniz e eu. O sol, que parecia brotar das profundezas do mar, tocava os vidros da sala com um esplendor surreal. Era um relâmpago cristalino a banhar-se devagar nos copos de sumo de laranja. Descansava, enfim, em delícias mornas, no branco muito alvo da toalha de mesa.

A manhã era bela como são, aliás, todas as manhãs sob a pacificação dos lugares onde reverbera a poesia. A água azul da distância levava um barco, muito lentamente, num rumo de luz.

As vozes e os rostos dos nossos afectos fazem de um deserto um espaço habitável. Se estamos, como naquele momento, perante a sublimidade, então a circunstância de uma euforia ganha o perfil de um postal ou de um quadro de ressonâncias indeléveis.

Esta associação de ideias e memórias ocorreu-me enquanto lia o mais recente livro de Urbano Bettencourt, Que Paisagem Apagarás. Estaquei ante esta passagem:

“E dei comigo a pensar como será bom saber que, de cada vez que sucumbirmos ao íntimo chamamento do mar, uma voz de mulher há-de erguer-se para chorar-nos o destino e a perdição.”

Há, no conjunto dos textos que permeiam as suas páginas (desde a ficção à nota de viagem, por exemplo) uma harmoniosa hibridez de géneros literários. A leitura reparte-se por vários registos, é certo. No entanto, não se antagonizam; perfilam-se numa unidade exemplar que salienta o cuidado com que o autor pôs na sua organização. Não obstante os seus contornos próprios, os textos revelam um vector comum naquilo que é a marca inconfundível da mais do que afirmada escrita de UB: o estilo sóbrio e rigoroso. Na sua reverberação semântica encontramos segurança, finura no estilo,  e um perfil intelectual abrangente, tangível e coeso.

O devir inequívoco da sua mecânica criativa resulta em textos depurados, poéticos em certos momentos, e em cujo vínculo descobrimos ironia, humor, subtileza e elegância. E, derradeiramente, a sua emocionada humanidade.

Este título de Urbano Bettencourt, que se apresenta como um novo marco na sua já extensa bibliografia (poesia, narrativa e ensaio), revela um ficcionista de primeira água. Atente-se, por exemplo, neste diálogo entre Antero de Quental e Del Giudice no conto O comboio inexistente:

“ – Vou à procura de uma mulher que saiu de casa atrás de um verso de treze sílabas  – declarou Del Giudice, enquanto tentava surpreender no rosto do outro o efeito dessa confissão.
– Não creio que seja uma boa razão para viajar.
– A da mulher ou a minha?
– A sua. Perseguir um verso pode ser um projecto de vida, mesmo que se trate de um verso funesto. Mas lançar-se no encalço de uma mulher por causa disso já me parece uma intriga de novela de mistério.”

Perante a mestria narrativa patenteada neste novo título de Urbano Bettencourt, fica no ar esta pergunta e este desejo: Para quando um romance? Que Paisagem Apagarás é um livro delicioso que nos proporciona grandes momentos de prazer, nos comove, deslumbra e entretém.


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notas de apresentação de QUE PAISAGEM APAGARÁS, de Urbano Bettencourt

por Carlos Alberto Machado

São Roque do Pico, 30 de Julho de 2010

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Paisagens da memória: sobre o livro
Que paisagem apagarás, de Urbano Bettencourt

por Luiz Antonio de Assis Brasil, 2011




terça-feira, 11 de setembro de 2012

Na distância deste tempo, de Marcolino Candeias

Victor Rui Dores, no Faial online, de 17 de fevereiro de 2009,  publicou a recensão Marcolino Candeias – poeta da circunstância? sobre a coletânea Na distância deste tempo, do autor terceirense Marcolino Candeias.


Carlos Reis publicou na Revista Colóquio/Letras a recensão que se transcreve.

MARCOLINO CANDEIAS
NA DISTÂNCIA DESTE TEMPO
Sec. Regional da Educação e Cultura
Angra do Heroísmo / 1984

Da «distância deste tempo» (título emblemático do livro e do poema final) faz-se e alimenta-se esta colectânea, enunciada a partir de uma certa forma de activação da memória poética: memória que é ao mesmo tempo superação da distância e compensação da ausência, mas também forma de permanência. De intensidade lírica, de discreta concentração vivida na intimidade da solidão, é feita essa permanência em que a imagem da Terceira ausente perpassa e deixa a marca do tempo perdido e da angústia silenciosa: «Então o silêncio cresce cada vez mais invadindo as paredes do meu quarto / assim como um bolor que vai nascendo e envolve o lar tomado de abandono» (p.54); um bolor que não pode senão trazer à lembrança palavras de Carlos Oliveira, retomadas por Abelaira: «Os versos / que te digam / a pobreza que somos / o bolor / nas paredes / deste quarto deserto».
Instância fundamental da criação poética, a memória é, nestes versos de Marcolino Candeias, a origem da poesia, origem patenteada no belíssimo «Poema de saudade ardente», quando se evoca o desejo de ficar «formigando sobre o mel da chegada» (p. 25), porque a imagem obsidiante no espírito do poeta é ainda e sempre a da ilha ausente. Uma ilha que traz consigo pessoas, situações, episódios e também os laços afectivos que a todos congraçam: a figura do Pai, também João Vital, Chico Veríssimo e Joe Simas, tornados todos ainda mais distantes por efeito da morte ou da emigração, esta última uma temática de nítido recorte açoriano. Justamente por força da sobrevivência, na memória, destas figuras, a poesia de M. Candeias é também uma poesia do tu, logo feita poesia do nós, graças a esse diálogo com os ausentes que serve ainda para superar uma qualquer forma de saudade passiva e inconsequentemente sentimental, abolida de modo radical deste volume.
No fundo deste cenário recorta-se, pois, a ilha, os seus objectos, espaços e motivos; espécie da Ítaca reconstruída por uma saudade activa, a ilha inspira um regresso sublimado em imagens cuja depuração lírica roça a intemporalidade de certo modo perseguida por toda a poesia: «No cheiro a erva / um sonoro subtil soar de silêncio / brota um crepúsculo de flores esmagadas» (p. 37). Por isso a poesia de Marcolino Candeias passa ao lado da questão (da polémica, se se quiser) da «literatura açoriana»; sem abdicar de um elenco temático marcantemente relacionado com a terra açoriana, a poesia de M. Candeias escapa à armadilha do folclorismo pitoresco: filtrada pelo crivo de uma emoção lírica refinada, esta poesia estende uma ponte firme entre esse elenco temático e a vivência de mitos e temas (a morte, o tempo) tão ancestrais como a própria poesia. Por isso este volume constitui inegavelmente um marco importante na (por ora) breve produção deste jovem poeta.
Carlos Reis

"[Recensão crítica a 'Na Distância Deste Tempo', de Marcolino Candeias]" / Carlos Reis. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 92, Jul. 1986, p. 98-99.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Fui ao mar buscar laranjas, de Pedro da Silveira


Pedro da Silveira (n. 1922, Fajã Grande, Flores, Açores - m. 2003, Lisboa) é um dos autores açorianos que consta na lista de livros recomendados pelo Plano Regional de Leitura, com a sua obra poética "Fui ao mar buscar laranjas", editada pela DRAC em 1999.
Álamo Oliveira, poeta e ensaísta, traça-lhe o perfil num trabalho publicado no n.º 13 de 2004 do boletim do Núcleo Cultural da Horta.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Mistério do Paço do Milhafre

O Mistério do Paço do Milhafre (1949), de Vitorino Nemésio (1901-1978), é um dos livros recomendados pelo Plano Regional de Leitura. Esta coletânea de contos baseia-se essencialmente em histórias que o autor ouvia quando era criança, e é marcada pelo uso de regionalismos.

Paulo Meneses, da Universidade dos Açores, no âmbito das atvidades do I Congresso do Seminário Internacional de Estudos Nemesianos, apresentou o seguinte texto O Mistério do Paço do Milhafre: Uma poética da oralidade.


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Lista de livros recomendados pelo PRL

O Plano Regional de Leitura (PRL) surge como complemento do Plano Nacional, contemplando obras de autores ou de temática açoriana que não estejam incluídas na lista nacional.

As obras recomendadas dirigem-se ao público em geral, sem especificação de níveis etários ou escolares. Deixa-se assim aos educadores a missão da escolha, de entre estas ou, obviamente, outras obras de interesse para o desenvolvimento intelectual, social e ético dos mais jovens, aquelas que julguem mais adequadas à sua idade mental e ao seu estádio cultural.

Lista de livros