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quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Pedras Negras, de Dias de Melo
Texto de Victor Rui Dores publicado no boletim n.º 13, 2004, do Núcleo Cultural da Horta.
Dias de Melo
Pedras Negras
Lisboa, Salamandra
38ª edição, 2003
Vinde, vede e lede Dias de Melo, escritor, 78 anos de idade e 50 de vida literária, homem solidário, solitário e fraterno, viciado na escrita e no cachimbo, picaroto da Calheta de Nesquim, baleeiro da literatura açoriana.
Do recolhido silêncio do Alto da Rocha do Canto da Baía, continua este autor a aguentar o rumo da escrita, num percurso literário cujo universo temático consubstancia à sua volta a distância, a ausência, a vida e a morte no registo mais sentido de uma escrita de funda expressão humana e universal.
Dias de Melo continua a escrever e a surpreender, ele que fez da ilha do Pico e dos picarotos a matéria prima dos 27 livros que até à data publicou, em diversos registos e diversificados géneros literários: a poesia, a narrativa, o conto, a novela, o romance, a crónica, a monografia, a dissertação didáctico-pedagógica e o estudo etnográfico. Em toda a sua obra, este autor, sem nunca fazer concessões a modas literárias, conta-nos histórias dos homens do mar e da terra, gente de grande riqueza psicológica.
Conhecendo de perto a actividade baleeira e olhando-a e sentindo-a como coisa sua, Dias de Melo (ele próprio baleeiro esporadicamente) fez de grande parte da sua escrita um painel dessa mesma actividade, muito particularmente da que se reporta ao concelho das Lajes. Foi ele que deu à literatura portuguesa um testemunho empolgante e vigoroso sobre a história anónima e colectiva dos baleeiros do Pico, captando a verdadeira dimensão humana, social e dramática dessa epopeia marítima, sobretudo nos livros que constituem aquilo a que Santos Barros chamou “trilogia da baleia”: Mar Rubro (1958), Pedras Negras (1964) e Mar pela Proa (1976).
Pedras Negras passa por ser (e é) o livro mais emblemático de Dias de Melo, cuja 3a edição acaba de ser dada à estampa (Salamandra, 2003). Recorde-se que a primeira edição data de 1964 (Portugália Editora) e a segunda de 1985 (Editorial Veja), havendo desta obra uma edição em inglês: Dark Stones (Providence, Gávea Brown Publications, 1988), com notável tradução de Gregory McNab.
Escrito com sóbria mestria narrativa e arquitectado sobre a problemática da emigração, Pedras Negras é percorrido por uma profunda açorianidade, em que terras e gentes nos transmitem uma impressão de vida áspera, de solidão insulada, onde a luta pela dignidade é uma constante e a sobrevivência se ganha a pulso. A acção decorre entre os princípios do século XX até finais da Segunda Guerra Mundial. A personagem central é Francisco Marroco que, aos 16 anos de idade, desafia a ilha e foge de salto na baleeira “Queen of the Seas”, com os olhos postos na América... Só lá chegará três anos depois, tendo percorrido os mares de todo o mundo à caça da baleia, ele que encontrou na errância a sua forma de perseguir a felicidade e o sonho. Após ter conhecido a vida dura em terras americanas, Francisco Marroco regressa à ilha do Pico e é esmagado por essa mesma ilha, após o fugaz intervalo de uma felicidade passageira e ilusória, em que conheceu o estatuto de “senhor americano”...
Este é um livro que não envelheceu e continua a emocionar e a surpreender.
Victor Rui Dores
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Mar pela Proa, de Dias de Melo
Mar pela Proa, de Dias de Melo
Ao (re)editar a obra de Dias de Melo, a Ver Açor prestou um inestimável serviço à cultura açoriana, porquanto o autor ocupa um lugar ímpar na literatura marcada pela açorianidade. Não é, porém, Dias de Melo apenas o “cronista” da saga baleeira, como muito vulgarmente se pensa, sequer tão-somente um escritor que legou à posteridade a “alma açoriana” (embora não sejam estas tarefas menores); é um criador de valor maior no contexto da produção literária não só açoriana mas também nacional. Mar pela Proa, de que diz Daniel de Sá ser “talvez a mais extraordinária das obras [de Dias de Melo]”, com “força bastante para se tornar universal”, está agora ao dispor do público numa edição extremamente cuidada, de inegável bom gosto gráfico – e os bons autores merecem boas encadernações, boa divulgação, trabalho em que a Ver Açor se esmerou.
Mar pela Proa poder-se-á considerar uma novela (ou um curto romance, dadas as suas poucas mais de 150 páginas), cuja “estória” – que se desenvolve em torno, basicamente, de um episódio – não deixa de ter contornos épicos. Dividido em três partes, que por sua vez se subdividem (a Primeira Parte em dois momentos: Estes são os nossos botes e Amarras partidas, a Segunda Parte em três: Rumo perdido, Nesga de céu na cerração e Duas estrela), sendo que a Terceira Parte contém apenas um momento: Chamas reavivadas, o livro tem tanto de regionalista como (parafraseando Daniel de Sá) de universal. Se são da Calheta do Nesquim os homens que se lançam ao mar, orgulhosos da sua Companhia Nova (companhia formada por baleeiros independentes, donos dos seus botes, sem a outro senhor servirem que não ao companheirismo de homens livres), se falam e agem como gente da(s) ilha(s), não deixam de ser de qualquer lugar ou tempo os sentimentos que perpassam a obra. Por outras palavras, o que há de espacial e temporalmente particularizado nos homens ilhéus de Mar pela Proa é concomitantemente universal, pois soube Dias de Melo mostrar num grupo de homens aquilo que define o Homem – os seus desejos, os seus sonhos, a sua força, a sua debilidade, sobretudo o seu sentido de união e de empenho numa tarefa comum.
Assim, Mar pela Proa assume, na aventura dos baleeiros arrostados com uma tormenta, uma dimensão verdadeiramente épica. Por um lado, temos a considerar o sentimento de pertença a um grupo e o companheirismo na construção de uma “obra” (a Companhia Nova), por outro, é de relevar batalha do(s) homem(ns) frente aos elementos, num esforço desmedido para salvarem a vida – mas também o sonho (as embarcações). A lição épica só a reconhecemos, todavia, no fim, quando António Marroco (o herói que se destaca por ser o que mais agruras enfrenta até vencer o mar) diz acreditar que é possível o recomeço. De facto, tal como acontece em qualquer epopeia, muitos são os reveses com que tem de se confrontar o Homem, – e na epopeia destes baleeiros há momentos de fraqueza, que gera a desunião. Se uma canoa se perdeu – e com ela vidas – foi, é-nos dito explicitamente, porque “as amarras se partiram”. Porém, o herói – no sentido épico – luta e acredita. O herói que é Manuel Marroco.
Se Mar pela Proa vive essencialmente de um episódio trágico-marítimo, não deixa de fazer incursões na vida pessoal das personagens, conferindo-lhes (maior) humanidade. Assim, surgem analepses frequentes onde são narrados pequenos episódios das “estórias” particulares de alguns dos homens. Também nestas incursões se destaca Manuel Marroco, de cuja vida – sempre de luta e perseverança – ficamos a saber alguns pormenores. Esta personagem comove e alenta, pois de um homem lutador, pelo sonho comandado e pelo amor aos seus se trata. Uma espécie de paradigma do Homem, sem perder, contudo, a sua individualidade de filho da ilha.
Mas não só pela “estória” narrada, pelo seu valor testemunhal, se destaca Mar pela Proa. Com efeito, Dias de Melo é senhor de um registo discursivo (ou de vários) esteticamente marcante(s). Assente numa narração feita do surpreender de momentos e de um manejamento hábil e natural do discurso directo, a obra flui pela palavra como se esta tivesse o compasso do próprio mar. Os regionalismos do discurso directo, “apanhados” nas falas das personagens, têm, naturalmente, grande interesse etnográfico – mas, muito mais do que isso, é o ritmo do discurso directo que prende o leitor. Uma palavra ou duas, frases inacabadas, uma reflexão atirada ao vento tempestuoso – tudo isto confere uma plasticidade incomum ao texto de Dias de Melo. Feita de uma excelente intersecção entre narração, descrição e diálogo (ou monólogo), a escrita de Dias de Melo poder-se-á considerar impressionista, no sentido em que capta instantes, sugere impressões. Tal escrita assenta num trabalho da palavra cuidado e ao mesmo tempo, diríamos, natural, isto é, aparentemente fácil. Todavia, há no labor da frase curta (por vezes muito curta) de Dias de Melo um virtuosismo digno de reparo. Trata-se de uma prosa moderna por esse tipo de frase, pelos refrões frequentes (as palavras do louco ou do jovem que fica no mar), pela síntese de ideias expressas em palavras densas.
Por tudo o que foi dito e pelo imenso que ficou por dizer, Mar pela Proa é uma leitura que vivamente se recomenda. Dias de Melo não é, de forma alguma, apenas um escritor nosso. É um excelente artista da palavra.
Paula de Sousa Lima
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