segunda-feira, 4 de março de 2013

Os Expostos, de Madalena San-Bento

SAN-BENTO, Madalena, Os expostos, Coleção Gaivota 78, Angra do Heroísmo, DRAS e SREC, 1994, 166 páginas



Fruto de um trabalho minucioso de escrita, elaborado a partir de elementos histórico culturais característicos de uma região insular, a autora revela-nos as condicionantes das gentes açorianas, num tempo oitocentista, e deixa perpassar, ao longo da narrativa, reflexões profundas sobre o ser humano que busca o idílico espaço de liberdade e de concretização, em  busca do conhecimento e da descoberta  das suas próprias origens.
Falamos de Rodrigo e de Ismael, personagens em tudo, aparentemente, diferentes pelo rumo de vida e pelo lugar que ocupam na sociedade. No entanto, há entre eles um paralelismo emocional que os une a um espaço idiossincrático ─ a ilha. 
Rodrigo é enviado aos Açores por demanda do pai que, por motivo de doença, foi impedido de viajar. Esta viagem proporcionou a Rodrigo a oportunidade da sua vida. Chegara finalmente a aventura idealizada e há tanto tempo frustrada por oposição paterna. A liberdade começa pelo afastamento da autoridade limitadora e prolonga-se através da descoberta da Ilha, um lugar que está enraizado em Rodrigo embora ele o desconheça.
A ilha exerce sobre a personagem um poder indescritível, «a ilha, assim, deixava de ter contornos, diluindo-se ela própria entre o céu e mar, flutuando, e tornando-se deveras uma coisa etérea. Era uma sensação, ou uma sucessão de impactos que se acumulavam na garganta e o impediam de falar» (p. 65). Parte, por isso, do desvendar do espaço exterior para o conhecimento da circunstância que o prende à terra insular e este rumo fará, assim, parte de um percurso iniciático, uma «descida aos infernos» do ser.
Ismael, cercado de proteção e amparo, cresceu no seio da Igreja, desconhecendo os seus progenitores. Este anonimato permitiu-lhe ainda assim uma (aparente) tranquilidade emocional. O acompanhamento de todos os que o rodearam ao longo da vida dotou Ismael das defesas necessárias à sobrevivência.  Deste modo, quando Rodrigo toma conhecimento da origem familiar do amigo, a única forma encontrada para o honrar e proteger é «”deixá-lo ser filho da ilha”.[...] Assim levará uma carta de recomendação, ao franquear a eternidade...”» (p.166).
A ilha cria e acolhe.  Por isso, envolta de brumas físicas ou oníricas, proporciona ao ser humano o regaço e o eterno porto de abrigo.

Paula Cotter Cabral

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O Faial e os Portugueses, de Thomas Wentworth Higginson



(2009) Thomas Wentworth Higginson, O Faial e os Portugueses.

por Catarina Azevedo in Boletim do Núcleo Cultural da Horta, n.º 19 pp. 515-520


A colectânea de textos de  Thomas Wentworth Higginson, O Faial e os portugueses, coligida por George
Monteiro, compreende sete textos que abordam temáticas relacionadas com o que observou aquando da sua vinda aos Açores e que se traduz num cariz mais descritivo, próprio do texto jornalístico, ou na construção de um imaginário mais misterioso quando se aventura na ficção.

Embora, como bem frisa a nota do editor, nem sempre a visão que tem dos faialenses e dos seus hábitos seja a mais agradável para quem, hoje, visita a ilha (e era inevitável que assim fosse pois retrata o século XIX e dado que estes textos “constituem a reacção de um visitante sincero, informado e frequentemente generoso perante um povo e uma cultura que lhe são claramente estranhos em virtude da sua própria preparação e herança cultural” p. 21), os seus textos permitem traçar um retrato bastante rigoroso do que era a sociedade da época e quais as vivências tanto dos habitantes como de quem nos visitava. Além disso, por detrás das críticas, sente-se, quase sempre, um entusiasmo verdadeiro pela cultura e pela paisagem que o levou a debruçar-se sobre tudo o que lhe parecia tão diferente da sua própria experiência pessoal.
(...)

continue a ler aqui

.............................................


O Faial e os Portugueses, de Thomas W. Higginson
Uma visão romântica das ilhas do canal no séc. XIX

por Duarte Miguel Barcelos Mendonça in Portuguese Times

No ano passado o Núcleo Cultural da Horta publicou esta magnífica obra, que reúne uma série de textos da autoria do americano Thomas Wentworth Higginson, pastor protestante unitário, entre muitos outros predicados, natural de Cambridge, Massachusetts, que passou uma temporada na ilha do Faial no séc.
XIX, junto dos Dabney, e que nos legou as suas impressões da ilha que então
lhe foi dado a conhecer.

A recolha, (em várias fontes), a organização e introdução destes textos foi elaborada por George Monteiro, Professor Emérito da Brown University, e uma referência no campo dos estudos luso-americanos. A tradução dos originais, para a língua portuguesa, foi um trabalho da responsabilidade de Lisa Godinho e de Leonor Simas-Almeida.

Nas 138 páginas que compõem este livro, cuja capa se apresenta ilustrada com uma gravura do Faial retirada do livro de Mark Twain, Innocents Abroad, temos o privilégio de ler os seguintes textos escritos pelo Higginson: “O Faial e os Portugueses”, “Uma série de temporais terríveis”, “Subida à montanha do Pico”, “Janela assombrada”, Uma viagem aos Açores”, “As ilhas encantadas” e “Apogeu e decadência de Portugal”.

continue a ler aqui


Memória da Terra, de José Martins Garcia


JOSÉ MARTINS GARCIA
MEMÓRIA DA TERRA
Col. O Chão da Palavra
Lisboa, Veja/1990

por J. M. Bettencourt da Câmara in Colóquio Letras 

Até que ponto pode manter-se a ideia – a que nos habituámos – de que o escritor vive das suas obsessões (vive delas, como criador, porque, homem, vive com elas)? Há, de qualquer modo, autores de temática mais diversificada, abertos a um mais amplo leque de questões do que outros. Dir-se-á, porém, que mesmo nestes é possível explicitar preocupações fundamentais que teimam em permanecer de título para título – as ditas obsessões que, não menos do que os contornos que sob a sua mão assume a língua, isto é, o estilo, contribuem para o caracterizar, para face ao leitor, lhe garantir individualidade, factor maior, porventura, da sua capacidade de fascínio. A necessidade do reconhecimento – que na história das artes visuais explica, em boa parte, o multissecular triunfo da mimesis – verifica-se aqui também: o encontro com o escritor na presente obra ganha interesse simultaneamente pela novidade que apresenta em relação a trabalhos precedentes e pela permanência do perfil que o discurso escrito nos faz reconhecer.

Esta perspectiva serviria à abordagem global de uma obra vasta como é já a de José Martins Garcia. Fiel às suas obsessões, senhor de um perfil, não se dira, porém, que o escritor açoriano de facto se repita. O último romance parece demonstrá-lo. Interessante, pois, na nova obra de Martins Garcia reconhecer o Autor, reencontrá-lo.

Por exemplo, na desconfiança, que ele traz de longe, face à etnografia (p. 173: “uns ‘intelectuais’ que deliram com a criatividade popular”), etnografia que, aliada a determinados entendimentos das literaturas regionais – da açoriana, que particularmente o implica –, ele teme sempre oculte o que deveras interessa à leitura: o humano.

No não recear as ideias ou, mesmo, sem pejo nem pretensão simultaneamente, a filosofia – naturalmente na medida em que esta possa, sem a prejudicar, ser presente à ficção. (Por exemplo, a questão do sentido da história ressalta em Contrabando Original, romance que antecedeu Memória da Terra. Deste, extraio as frases finais: “Às oito vou entregar estes cadernos ao António Lima. Ou não?… Um rasto, para quê?... Como não ter existido… Como não ter existido…”).

No gosto pelos labirintos da heteronímia – sempre, afinal, como a questão do eu e do outro, num insuportável jogo de espelhos, onde coisas e imagens delas se confundem. Importante na última parte de Contrabando Original, em Memória da Terra Martins Garcia realiza o tema diferentemente: aqui o narrador reproduz, repete, o percurso insular do irmão admirado/recusado. (“- Dói-me. É verdade que entrei aqui com o teu irmão… Mas eu não esperava entrar aqui de novo contigo, para repetir a mesma cena. É um pesadelo… /- Não é uma repetição”, p. 235.)

Sobretudo, na experiência do outro como completamente outro, do outro a que o eu se refere não por alguma identidade, mas por oposição, por negação, por agressão: quer dizer, a questão da negatividade nas relações humanas, a qual constitui, sem margem para dúvida, umas das obsessões maiores de Martins Garcia, parece referir, a esse, o perfil de escritor “maldito”).

Finalmente, no tema da insularidade, em que me deterei um pouco mais, para além da simples enumeração que em relação aos anteriores me impus.

Li Contrabando Original como tentame de realização literária do próprio destino açoriano: da reclusão insular, corajosamente desenhada em traços de semibarbárie tribal, à diáspora continental (lisboeta) e americana, pareceu-me ser esse, nitidamente, o propósito subjacente à obra. Escrito na primeira pessoa, o romance é, efetivamente, menos autobiográfico do que paradigmático. A experiência pessoal do Autor, imprescindível de um modo ou de outro (por mais que ele se queira “fingidor”), solicitará apenas uma leitura imediata e simplificadora (simplista) do livro, que só entendido como paradigma de um destino açoriano adquire toda a sua dimensão.

Persistindo na escrita na primeira pessoa, em Memória da Terra o narrador é, contudo, não-ilhéu. (Estava tentado a dizer: não-açoriano; porém, o esbatimento do cenário geográfico acentua-se aqui relativamente a Contrabando Original, onde ainda é possível reconhecer a ilha natal do Autor, o Pico. Em Memória da Terra fala-se da ilha, embora possa manter-se que se trata dos Açores, sem que de nenhuma ilha dos Açores se trate.) É, assim, óbvio o projeto que por seu turno subjaz a Memória da Terra: pretende-se abordar a questão da ilha a partir de um ponto de vista pretensamente exterior a ela – outro que não o daqueles que da maternidade do seu solo se reclamam (ou recusem). É um “continental” que, chegado à ilha em busca do irmão desaparecido (a referência ao modelo do romance policial é, mais do que possível, apetecida), a conta – e se conta. Donde o facto de o romance representar, para o Autor – o qual, nascido nos Açores, depois de uma experiência de diáspora pela capital, por uma das colónias portuguesas de África (onde fez a experiência da guerra) e pelos Estados Unidas da América (onde foi professor, numa universidade), ao Arquipélago retornou (ensina atualmente na Universidade dos Açores) – a tentativa para caraterizar o olhar do não-ilhéu sobre a ilha.

Olhar que podia ser o de fascínio pela generosidade da natureza (o que não redunda necessariamente na caricatura do olhar turístico), mas esse não se quadra ao perfil do escritor: é a ilha como espaço fechado, sufocante, que lhe interessa. (como já o fora, sobretudo, em Varanda de Pilatos de Vitorino Nemésio. Julgo significativo que Martins Garcia, estudioso notável da obra nemesiana, se empenhe na “recuperação” do primeiro romance do autor do Mau Tempo no Canal, contra palavras desde que de facto não devemos tomar ao pé da letra.) Repetem-se ao longo de Memória da Terra as considerações sobre a ilha, fracção de terra fatidicamente cercada pelo “roncar do mar, a ameaça do mar” (p.95), e a condição insular, que o narrador, continental, não consegue fazer sua, nem na realidade física (cita-se o clima que impõe “a viver” – p.146) nem na dimensão humana (“Mais saudável, sem dúvida, seria agredir esse mundo mediante a excomunhão duma fracção chamada ‘ilha’, rocha fatídica, cativeiro, claustro, paradoxalmente cheia de mexericos, boatos, piadas de mau gosto, recalcamentos, bolor” - p. 91).

Negativamente (em mais do que um sentido!), José Martins Garcia continua a celebrar a(s) ilha(s).

..........................................

Urbano Bettencourt sobre José Martins Garcia
in BOLETIM DO NÚCLEO CULTURAL DA HORTA Nº 13, 2004

(...)
José Martins Garcia nasceu na Criação Velha, Ilha do Pico, a 17 de Fevereiro de 1941, tendo feito uma parte dos seus estudos liceais na cidade da Horta. Em Lisboa, licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras, onde viria a leccionar entre 1971 e 1977. Chamado a cumprir serviço militar em 1965, foi mobilizado para a Guiné-Bissau, aí permanecendo de 1966 a 1968, experiência que se projecta literariamente em Lugar de Massacre (1975), um dos primeiros romances portugueses a abordar a guerra colonial, numa perspectiva paranóica e demencial; essa experiência acabaria por pontuar, sob variadas formas e em diferentes circunstâncias, a sua obra literária.

Entre 1969 e 1971 foi leitor de Português na Universidade Católica de Paris, e em 1979 rumaria aos Estados Unidos como professor convidado da Brown University (Providence), aí permanecendo até 1984; o rasto desse tempo americano é detectável em Imitação da Morte (1982) e no belíssimo e devastador livro de poemas Temporal (1986).

De seguida, ingressou na Universidade dos Açores, em cujos planos de estudo das licenciaturas introduziu a cadeira de Literatura e Cultura Açorianas e onde se doutorou com uma tese sobre Fernando Pessoa; nesta Universidade terminou a sua carreira académica como Professor Catedrático, tendo ainda ocupado o cargo de Vice-Reitor e dirigido a revista Arquipélago, do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas. Faleceu em Ponta Delgada a 4 de Novembro de 2002.
(...)


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Raiz Comovida, de Cristóvão de Aguiar


Raiz Comovida – Trilogia Romanesca, de Cristóvão de Aguiar, começou a ser publicada há 25 anos – iniciou-se com A Semente e a Seiva (1978), e continuou-se com Vindima de Fogo (1979) e O Fruto e o Sonho (1981), para aparecer finalmente, num único volume (pela Editorial Caminho, 1987). Temos agora uma nova edição desta obra (Publicações Dom Quixote, 2003), que resulta de um profundo trabalho de revisão e de remodelação da edição anterior – de tal modo que, por vezes, temos a impressão de estarmos não perante uma edição revista de uma obra anteriormente publicada, mas sim perante uma obra nova e escrita de raiz.

Sendo uma obra de inspiração, de evocação e de definição açorianas, Raiz Comovida é, na beleza forte do seu título, muito mais do que aquilo que a uma leitura mais apressada possa parecer: não é mais um daqueles livros que costumam dar corpo ao que poderíamos chamar a estética da saudade, baseada no revivalismo de um país que a pouco e pouco vai deixando de ser o país das aldeias ; também não é um livro de memórias regionalistas. Indo muito mais fundo, nesta obra perpassam os tipos humanos que resultaram da amassadura da cultura ibérica tradicional com as águas, o sal e os ventos do mar, polvilhada de vulcões e abalos de terra, e mais de incursões dos piratas do Norte de África, e do isolamento, e de um ou outro arroubo colonialista – e perpassam sobretudo os contadores de histórias, aqueles que podemos tipificar na personagem do Ti José Pascoal de quem o narrador se queixa de que “Já está aqui há muito tempo à minha ilharga pedindo-me para entrar nesta história.[ pelo que, conclui ] Decidi fazer-lhe a vontade e vou já passar-lhe a palavra” (p. 45).

Desde a primeira à última frase de Raiz Comovida – vejamo-la nós em separado nos livros que a fizeram, vejamo-la na sua versão integral, já de si remodelada, de 1987, ou vejamo-la agora nesta nova versão que nos perturba enquanto gesto de inteligência dos tempos que correm e dos gostos que eles acarretam, mas sem nunca esquecer que se trata de uma reconstelação (isto é, de um reagrupamento, ele próprio dinâmico e interactivo) de elementos dispersos que são coerentes entre si, e que mutuamente se atraem, precisamente porque comungam do mesmo passado, e registam a memória que delimita a identidade cultural de quem, como os açorianos, é o fruto, ou o sonho realizado, de uma semente europeia que medrou mergulhada na seiva de um grande mar – e que agora se oferece, na comoção desta Raiz Comovida, à grande vindima que, de cada vez que acontece, representa, no nosso imaginário mediterrânico, a grande festa da vida.

Luiz Fagundes Duarte, 2003

Reflexão sobre a identidade portuguesa contemporânea a partir da análise do século XIX, de António Machado Pires


António Machado Pires:
reflexão sobre a identidade portuguesa contemporânea a partir da análise do século XIX


por Guilherme d'Oliveira Martins in Jornal de Letras, 27/08/2008


Em tempo de Verão podemos ter agradáveis surpresas quando se põe a leitura em dia. Este é um desses casos, que refiro gostosamente. “Luz e Sombras no Século XIX em Portugal”, de António M. Machado, é um conjunto de ensaios sobre a cultura portuguesa do final de oitocentos, a partir das referências intelectuais mais marcantes, em especial, da Geração de 70. A obra que, surpreendentemente, passou algo despercebida no momento em que saiu é de um extraordinário interesse não só pelas sínteses que apresenta, correspondentes a uma reflexão muito séria por parte de um dos nossos melhores especialistas na história da cultura portuguesa contemporânea, mas também pela ligação que procura fazer com o século XX e com as visões actuais sobre a identidade portuguesa. Saliente-se, entre os textos agora dados à estampa, a publicação de “O ensino de Cultura Portuguesa (fundamentos de uma cadeira), texto da última lição de António Machado Pires na Universidade dos Açores, que merece atentíssima leitura – onde se recorda a lição essencial de Vitorino Nemésio, para quem 'Cultura' é “uma perspectiva convergente e unitária de vários ramos do saber"

Machado Pires recorda, aliás, a preocupação de Nemésio, com os seus discípulos, em abrir as suas mentes para a Cultura Portuguesa ligando e relacionando realidades aparentemente distintas: “E por ‘ligar as coisas’ deve entender-se ligar pistas entre a intuição e a inteligência, a erudição e a capacidade mesmo, não apenas somar conhecimentos: fazer relacionações entre conhecimentos convencionalmente arrumados em cadeiras diferentes, ligar uma romaria a uma feira, esta a um modelo de vida, este à evocação de um almocreve, este a Gil Vicente e, por que não, a O Malhadinhas de Aquino? Ou o paralelo ou correspondência entre um anjo bochechudo e corado de um retábulo seiscentista e a mundivivência do barroco, ou a imagem nobre simbólico-poética Pégaso, ao cavaleiro medieval (ética da cavalaria) até... ao cavaleiro tauromáquico português estilo Luís XV. Não é tudo a cultura simbolicamente aduzida pela imagem do cavalo? Não era Nemésio o autor dos poemas de O Cavalo Encantado?”. Afinal, está bem presente nesta afirmação uma ideia de cultura como diálogo e confronto, entre quem vê e tenta compreender e aquilo que se pretende ver e entender. Dai a metáfora da varanda para ver a Cultura, tantas vezes usada, e agora de novo invocada. E Hernâni Cidade, António José Saraiva, Jorge Dias, Joel Serrão, José-Augusto França são recordados como exemplos de perscrutadores de novas pistas entre a intuição e a inteligência, a erudição e a capacidade de entender o “mundo da vida” – porque, no fundo, reflectir sobre a cultura é fazê-la, construí-la, interpretá-la e torná-la viva.

Lembre-se Fernão Mendes Pinto: “Não é só uma narração de experiências, percursos de paisagens exóticas ou encontros e desencontros de povos (Ocidente e Oriente), é a ironia da vida, a dor humana, pecado, entusiasmo e castigo, alegrias e lágrimas, voluntarismos e disponibilidades, uma grandiosa saga colectiva de um povo (nem sempre exemplar), mas provando a exemplar razão do tudo e nada da Vida”. Eis por que razão a Literatura é uma excelente varanda para avistar e compreender a Cultura como panorama, uma vez que temos o testemunho concreto, mais do que a lógica de um poder ou do que a mera ostentação de um saber. E mesmo que o autor tenha «ius imperii» (como foram os casos D. Dinis ou D. Duarte) a verdade é que comunica não pelo império, mas pela palavra e pelo sentimento. Assim, não compreenderemos o século XIX português sem ler Camilo (“raptos, fugas e famílias desgraçadas”), Júlio Dinis (“a conciliação social”), Eça (a ironia como método, devendo ser levada muito a sério) ou Cesário (a contradição dos sentimentos) e «tutti quanti». Mas há outras dimensões a não esquecer absolutamente: a geografia de Orlando Ribeiro, as origens históricas, como em Damião Peres ou José Mattoso, as raízes mais remotas em Teófilo Braga e José Leite de Vasconcelos.

Para A. M. Machado Pires, as duas linhas de pensamento dominantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, a idealista e a racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio têm de ser ambas consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Dando maior importância ora a uma ora a outra, o certo é que os dois pólos têm de estar presentes na construção do “ser de Portugal” (para usar uma expressão de Lain Entralgo). A vontade, o sentimento de pertença, “a estruturação da Cultura e a organização do Estado”, caminhando a par (na análise de A. J. Saraiva), a construção de um imaginário, a experiência “madre de todas as cousas” (de Duarte Pacheco Pereira e de Camões), os conflitos entre a sociedade antiga e a sociedade moderna (bem evidentes no “Portugal Contemporâneo”), a compreensão de um culto de sentimentos contraditórios, os mitos da origem, de resistência ou de predestinação, tudo isso nos permite tentar perceber quem somos e o que nos motiva e desafia. Daí termos de comparar, de ver de dentro e de fora, de cruzar saberes e campos de pesquisa. “Cultura não é um somatório heteróclito, indiferenciado, anódino e maçador, mas um caminho coerente para um fim demonstrável no seu todo, um rasgão na neblina de dúvidas e problemas; carregando um considerável conjunto de materiais para forçar a prova”. Nemésio falava ao sabor da memória, usando as palavras como as cerejas mas havia sempre um fio condutor, um fito, um meio de prova. O conjunto dos ensaios apresentados aponta, deste modo, no sentido da procura de caminhos explicativos, de linhas de reflexão, de sínteses e de paradoxos. O fim do século, a transição, a análise da crise política, económica e social, Antero de Quental, Eça de Queirós, Carlos Fradique Mendes (heterónimo colectivo de uma geração), Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Manuel Arriaga ocupam o pensamento e a reflexão de Machado Pires – que procura, como que apelando para Jano, respostas para o enigma persistente e contraditório de uma sociedade que oscila entre o messianismo e a vontade, entre o mito e a racionalidade, entre a crítica e a sobrevivência, entre o presente e o futuro.

Ao analisar as “raizes etnogénicas do Povo Português” no pensamento de Oliveira Martins (para quem a nossa individualidade “provém de uma dose maior de sangue céltico”, com o peso inerente do messianismo), o autor aponta a força do paradoxo: “Se o historiador busca a razão dos acontecimentos, culpa os homens; se procura os imperativos da Raça, culpa o Destino. Transporta a Moïra grega para o drama da causalidade histórica”. E, chamando a atenção para o percurso de vida do historiador oitocentista, fala do pessimismo das suas análises, em contraste com o seu compromisso cívico: “Foi, no entanto, também ministro da Fazenda, preconizando a criação de riqueza agrícola, do fomento rural, o aproveitamento das águas públicas, o repovoamento florestal, a nacionalização dos transportes, promulgando mesmo, nos poucos meses do seu governo, a reorganização das Alfandegas e da Fazenda, talvez acreditando ainda, como nos longínquos anos de 1868, no universalismo das comunicações, na grande federação dos homens livres, na imprensa, na locomotiva, na electricidade, na felicidade pelo Progresso Científico”. Ou seja, num momento em que, nos anos 90 do século XIX, a decadência se manifestava e em que o desastre parecia anunciar-se (o Ultimato, a bancarrota, a dívida pública, a crise do regime, os desprestigio das instituições), o cidadão Oliveira Martins não baixa os braços e revela o sentido positivo da atitude crítica, claramente demarcado do fatalismo do atraso: “Vemos como o seu amor à Pátria, à História e à dignidade do homem social nunca o abandonou e define com grandeza uma obra vasta e diversa que termina significativamente numa trilogia patriótica e na busca de arquétipos da excelência portuguesa”. Ao contrário das considerações superficiais sobre a Geração de 70, Machado Pires (como há muito nos habituou) procura demonstrar o carácter complexo do seu pensamento e do seu magistério, a atitude crítica positiva orientada num sentido emancipador, a coerência fundamental, centrada nas preocupações ligadas à justiça e à coesão social, bem como à criação de condições concretas para pôr o coração do país a bater ao ritmo da civilização.


Jornal do Observador, de Vitorino Nemésio

VITORINO NEMÉSIO
JORNAL DO OBSERVADOR
Editorial Verbo, Lisboa / 1974

por Pierre Hourcade in Colóquio Letras, n.º 27, setembro de 1975

Assim, um escritor que a si próprio se denomina «observador», e que consagra as primeiras páginas do seu livro à definição do que se poderia chamar o «estatuto» do observador, testemunha do mundo como ele vai e da vida como ela passa, reúne, sob o título Jornal do Observador, as notas hebdomadárias que, nesta qualidade, inseriu durante mais de dois anos numa revista intitulada O Observador! Tal jogo de espelhos, que remete do autor para os textos iniciais, depois destes para o órgão em que primeiro tinham aparecido, e finalmente para a colectânea que, sob a forma de «jornal», os retoma e reagrupa, divertiu manifestamente Nemésio, sem dúvida por ser uma expressiva imagem da sua personalidade proteica, incapturável. Quando se julga poder defini-lo pelo humor, descobre-se nele um fervoroso lírico. Quando se tem a ilusão de estar a lidar com um céptico bem disposto, cai-se de improviso num sentimental melancólico ou num apaixonado defensor de certos valores que reputa fundamentais. Ninguém mais hábil que Vitorino Nemésio para jogar às escondidas com o leitor, simulando a mais completa ingenuidade.
                As crónicas aqui reunidas não estão arrumadas pela ordem cronológica da sua publicação mas mais ou menos reagrupadas, com a excepção de alguns, poucos, parênteses, em séries que sucessivamente dizem respeito à literatura, a escritores e artistas, depois a episódios e paisagens portugueses (concedendo lugar de honra, como cumpria, aos dois ambientes predilectos do Autor: Lisboa e os Açores, seu arquipélago natal); em seguida ao Brasil, cuja realidade viva só bastante tarde conheceu, mas que havia muito lhe era grato ao espírito e ao coração; à França, em que se move como em própria casa, e a um pouco do resto da Europa, ao sabor das suas peregrinações; por fim, à África lusófona, designadamente São Tomé e Moçambique. Homens, obras, paisagens; viagens através do tempo e do espaço, mas feitas sempre sob o signo da amizade – uma amizade simultaneamente lúcida, sorridente e entusiasta.
                Ao longo do caminho, notações penetrantes, que vão muito além do pretexto que as suscitou, brotam de toda a parte: sobre a ambígua relação entre observação e informação no mundo de hoje; sobre a linguagem «sempre duplo sentido, alusão»; sobre Camões, «promovido» pelo povo português «ao absoluto biográfico da encarnação dos seus valores», lugar-onde «da consciência da missão de um povo à porta dos Tempos Modernos»; sobre a impossibilidade, mesmo para Teilhard de Chardin, de lançar uma ponte entre «o conhecimento racional pela fé e o conhecimento racional pela experiência»; sobre Picasso e Charlot, «expoentes e ídolos» astuciosamente postos em paralelo com Stravinsky; sobre a velhice («a desforra do velho válido é de acudir ao novo precocemente envelhecido»); sobre «o romance consumido […] supermercado às moscas de uma sociedade consumida»; sobre o diário íntimo, «negação da intimidade»; etc. deixo de remissa outras páginas, e das melhores.
                Seria entretanto errado ver neste homem de cultura e de fidelidade um passadista ferrenho, que sistematicamente se nega ao presente. Prova do contrário são, por exemplo, as páginas em que declara voltar «deslumbrado» de Brasília. O que impressiona é antes a espantosa ductilidade de espírito, a saltitante juventude deste septuagenário sempre à espreita de novidades, e para quem as evocações do passado só têm sentido e valor na medida em que adquirem na sua pena a frescura duma realidade eternamente viva. Não é de certo por culpa sua que a vertiginosa aceleração da História no decurso do último ano dá a algumas das suas evocações um tom nostálgico de in illo tempore. Mas em Vitorino Nemésio o poeta, que transparece a cada passo no universitário cultor da crónica, não é daqueles que julgam necessário fazer tábua rasa do passado para construir o mundo vindouro, mais justo, mais humano, que ele seria o último a recusar. Simplesmente desejaria – é pelo menos o que creio adivinhar – que, sob o pretexto de o libertar, não lhe roubassem tudo quanto de válido permanece na herança cultural e afectiva que recebemos.

...............................................

JORNAL DO OBSERVADOR
DE VITORINO NEMÉSIO
UMA JANELA ABERTA PARA O MUNDO
por Luís Martins Fernandes

Curso de Preparação para Doutoramento em
Ciências Literárias
Seminário “Questões da Literatura Autobiográfica”
Lisboa, Setembro de 2000
FCSH Universidade Nova de Lisboa

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Pai, a sua benção! (antologia de textos)


Pai, a sua bênção! (Antologia de textos de autores açorianos), Coingra, 1995, 313 páginas 

Esta obra, que abre a lista de livros recomendados do PRL, é uma antologia de textos de autores açorianos, comemorativa do Ano Internacional da Família, organizada por Álamo Oliveira, Ana Maria Bruno, Mariana Mesquita e Susana Rocha, numa edição da, então, Direção Regional dos Assuntos Culturais e Secretaria Regional da Educação e Cultura.
      Servem de mote à época natalícia, estas páginas repletas de referências ao elo familiar, às vivências do e no lar e ao lado afetivo e emocional que o final de cada ano aviva. Dezembro é, assim, por excelência (embora não esquecendo os restantes), o mês da solidariedade, da partilha e da casa acolhedora e carinhosa que nos envolve e nos restabelece.
      Ler textos de autores desde Antero de Quental a Judite Jorge, que abrem e encerram respetivamente esta obra, com um leque genológico diversificado, mas urdidos num fio temático unificador, permite-nos alargar os horizontes interpretativos da ideia de família e de geração. Daí a necessidade de dividir a exploração desta obra em partes, pois seria nitidamente redutora uma abordagem apenas parcial. A própria nota de abertura comprova já esta dificuldade  em selecionar os textos, os autores e as obras, «o leitor, com certeza, reconhecerá omissões e desfará presenças. Mas essa é a consequência mais saborosa que qualquer antologia pode provocar» (p.13).
      Deste modo, dezoito anos após a comemoração do ano internacionalmente dedicado à família, esta designada “Parte I” atentará em alguns dos exemplos líricos que refletem poeticamente sobre as ligações geracionais.
      O umbral recebe-nos com a reflexão dolorida da origem da vida no poema «Mãe…», de Antero, seguindo-se Roberto de Mesquita com o tom melancólico de «Viuvez». O amor e a saudade são também centrais no poema «Carta da América», de João Ilhéu, numa imagem tão reconhecida por todos os que viram (e veem) a despedida dos seus entes queridos para longínquas terras.
      Suspende-se, aqui, esta primeira e brevíssima abordagem da obra, com os «Conselhos», de Alfred Lewis:
      “[…] Marido, esposa, meninos e casa;
      Amor ligando a tudo; pão na mesa
      Leitinho p’ra beber, abrigo à noite
      Céu puro no verão, chuva em Dezembro
      Isto é bastante p’ra viver contente.”

      Importa sublinhar a diversidade dos modos e géneros literários que ilustram as cerca de trezentas páginas subordinadas ao tema “Família”.  Para além deste tema como fio condutor de palavras, podemos acompanhar diferentes facetas do ser humano universal com as cambiantes características do viver açoriano.
      As figuras feminina da mãe e da avó, bem como as masculinas, do pai e do avô,  predominam nesta antologia de reflexos, pensamentos, imagens e transfigurações das relações parentais, representando diferentes épocas, com vivências urbanas e rurais, num misto de distância e proximidade. Comecemos pelas marcas da separação física, que não deixam quebrar os laços emocionais, numa carta escrita por Teófilo Braga (1843-1924) a Maria do Carmo Barros Leite:
“Coimbra 7 de Outubro de 1867
      Minha santa mulher; não imagina a consolação profunda que me trouxe a sua carta de Airão; esperava recebê-la escrita já do Porto. Que paixão debaixo daquelas palavras simples. Não sei como esta carta me veio lembrar daqueles instantes em que estava no tanque com o lenço na cabeça à moda do campo. Não a vejo senão assim. Que admirável que estava, e como me parece ainda mais! [...]” (p.27).
      Teófilo fazia as palavras prolongarem-se no papel e aconchegarem a(s) alma(s). Recordemos também (os que ainda são do tempo das cartas que tardavam em chegar) a alegria e a ansiedade da receção daquela missiva tão desejada que se guardava num recanto secreto para reler continuamente e para, mais tarde, guardar como relíquia de uma fase a eternizar. 
      Em «Bodas de oiro», de Mateus das Neves (1907-1984), as quadras ao gosto popular retratam cenas do quotidiano das nossas gentes, ”Oh! que linda festa a de ontem/Nesta nossa freguesia:/ Bodas de oiro de noivado/ De ti’Bento e da Maria.  [...]” (p. 86), nos cíclicos ritos religiosos e sociais.
      Já no texto dramático, Quando o mar galgou a terra: peça regional em três actos, de Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), a personagem Miguel questiona, em diálogo com Aninhas, a relação estreita entre pai e filha e a dificuldade que existe em quebrar esta ligação: “Por isso mesmo é que ele não te queria perder, se casasses. Casar é cativar... Já não eras dele, mas do teu marido. Para onde o teu marido te levasse ias tu, por lei de Deus e dos homens. [...]” (p.57).
      Este tomo apresenta-nos tradições, sentimentos e sensações sempre atuais que nos prendem às pessoas e aos lugares, revelando formas de ser que evoluiram ao sabor do desenvolvimento  social, cultural e tecnológico. Constitui-se, assim, num documento histórico que proporcionará, indubitavelmente, momentos de puro deleite literário a todas as gerações, como nos versos de Adelaide Batista:
      “[...] Ali, onde o cachimbo
      e a cadeira de balouço
      apreendem
      um ontem e um amanhã
      num agora quente e morno
      de uma brasa em fumo
      libertada” (p. 262).

Paula Cotter Cabral, 2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ah! Mònim dum Corisco!..., de Onésimo Teotónio Almeida


Ah! Mònim dum Corisco!..., de Onésimo Teotónio Almeida:
o triunfo e a derrota do emigrante açoriano

por Mónica Serpa Cabral - Universidade de Aveiro (Doutoranda)


Exímio conhecedor da comunidade lusófona existente na costa leste dos Estados Unidos, Onésimo Teotónio Almeida publicou, em 1978, uma obra dramática composta por curtas peças de um acto, que foca os efeitos da emigração. Ah! Mònim dum Corisco!... contém histórias simples, unificadas por um mesmo tema, vividas por seres que se debatem consigo próprios, com um mundo desconhecido, com uma língua diferente, com novos valores e normas de comportamento, com condições de trabalho adversas, com vista a uma adaptação ao espaço controverso e complexo da L(USA)lândia.

Definido pelo próprio autor como «uma porção de Portugal rodeada de América por todos os lados» (Almeida, 1987: 7), o mundo l(USA)landês é uma realidade marginal, resultante da fusão de duas culturas: a portuguesa, nomeadamente, a açoriana, e a americana. Aliás, o título da obra aponta para uma consequência dessa simbiose cultural: o modo de falar do emigrante, assente na transferência de elementos de uma língua para a outra e na criação de novas palavras, como «mònim», referente a dinheiro, o elemento motivador da partida, o objecto da determinação ambiciosa do emigrante. No entanto, como essa obsessão de enriquecer passa pela aceitação de trabalhos árduos, monótonos e desprezíveis e pela dolorosa saudade da terra natal, o «mònim» é qualificado de «corisco», isto é, malvado, maldito, ruim. Focando situações cómicas retiradas do quotidiano, estes textos provocam o riso, através da ironia, da sátira, da caricatura, e desempenham, ao mesmo tempo, uma função ideológico-social, cumprindo a conhecida máxima latina: «ridendo castigat mores».

para continuar a ler, clique aqui em Forma Breve, n. 5 (2007)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O Peso do Hífen, de Onésimo Teotónio Almeida


Sinopse

Quase quarenta anos de América do Norte estão na base dos ensaios reunidos neste volume. A problemática dos valores, da ideologia, das mundividências, e a intimamente associada questão da identidade cultural, são centrais nas preocupações teóricas do autor que, quando lhe apontavam comportamentos estranhos nos EUA, costumava dizer «Esperem vinte anos que os terão aqui!» e agora afirma que se operou uma redução quase total desse espaço de tempo, residindo a diferença apenas na intensidade ou frequência dos problemas. Num mundo a globalizar-se vertiginosamente, cada vez esta temática é menos alheia ao universo cultural português, tendo-se tornado pão quotidiano nos noticiários e debates televisivos.

...................................................

O Peso do Hífen – Ensaios sobre a experiência luso-americana
de Onésimo Teotónio Almeida

por Victor Rui Dores in Faialonline

Estudioso acérrimo da história cultural, do imaginário e de tradição literária dos Açores, observador atento do real luso-americano, Onésimo Teotónio Almeida continua a publicar livros com espantosa regularidade, numa linha de contínua e continuada coerência com a sua obra primordial de onde irradia todo o seu imaginário: Da Vida Quotidiana na lUSAlândia (1975).

Deste autor acabo de ler, com natural expectativa, O Peso do Hífen, Ensaios sobre a experiência luso-americana (Imprensa de Ciências Sociais, 2010), que reúne uma série de textos, escritos entre 1983 e 2010, concebidos para ensaios, palestras e outras comunicações, e que agora surgem em versões alargadas, aprofundadas, expandidas, actualizadas e/ou reescritas.

Falar de Onésimo é falar de um pensamento analítico e da visceralidade de uma escrita rigorosa. E este autor pensa claro e escreve claro. Por exemplo, sobre as impressões da sua vida interior e exterior. Os seus escritos, com marcas de oralidade, propõem reflexões que são emoções e emoções que são reflexões. Eis um escritor de pormenores (patente nas inúmeras “Notas ao texto”), bem apetrechado em termos teóricos, com capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, e que incorpora nos seus discursos os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da ensaística e da investigação.

Sabendo-se que, à boa maneira empirista, as ideias chegam a nós pela experiência, temos que Onésimo sabe do que fala e fala sobre o que sabe e conhece, ele que vive e escreve em permanente desassossego criativo. Da sua vivência de quatro décadas em terras americanas, da assimilação de duas culturas diferentes, ele faz, com grande lucidez, uma série de reflexões filosóficas, observações sociológicas, apreciações literárias e retira conclusões, reinterpretando e reinventando, através de uma escrita errática, os temas que lhe são particularmente caros: a experiência da diáspora, a identidade, assimilação e aculturação dos portugueses inseridos nas comunidades norte-americanas; a “cultura hifenada”; as evocações dos incontornáveis Jorge de Sena e José Rodrigues Miguéis; a revisitação dos tempos pós revolucionários de Abril; as (íntimas) mundividências; os olhares (críticos e minuciosos) sobre a história e literatura luso-americanas, etc.

Se o pensamento de Onésimo é profundamente português, a sua metodologia de análise é estruturalmente anglo-saxónica. Quero com isto dizer que este autor não é dos que usam palavras a mais para esconder ideias a menos. Bem pelo contrário: sem flores na lapela nem brincos semióticos, ele dá forma e expressão ao que sente e pensa, sem aparatos académicos, esquivando-se a hermenêuticas e a considerações excessivamente teóricas, escrevendo num português vivo e escorreito, em estilo limpo, de grande elegância lexical, e com uma muito bem conseguida articulação de ideias.

................................................


A emigração no fiel da balança
por Nuno A. Vieira in Portuguese Times

Na ópera Nabucco, Joseph Verdi põe em pauta o lamento dos escravos hebreus, nas margens do rio Eufrates, ao relembrarem a sua pátria – “vai pensamento sobre as ‘asas douradas’”. É só em sonho que José Luís Borges, no conto El Otro, consegue aceitar o encontro do velho com o jovem – que são ele próprio – respectivamente em Cambridge, no estado de Massachusetts, no ano de 1969 e em Genebra, na data de 1914. Domingos Rebelo, no seu quadro Os Emigrantes e Tomáz Vieira, em Os Regressantes, recorrem à pintura para expressarem o espaço de aculturação entre a partida e a chegada. Agora, o Professor Onésimo Teotónio Almeida quantifica esse espaço na publicação do seu livro O Peso do Hífen.
O autor reúne, em volume, ensaios que têm como base quase quarenta anos de América. Trata-se da experiência luso-americana nas ‹‹comunidades›› norte-americanas. O escritor constata diferentes valores do peso: “O peso do hífen tem sido para mim mais do que sustentável. Leve, direi mesmo. Diferentemente hão-de sentir muitos dos meus patrícios. O peso para esses está exactamente no facto de não lhes ser possível libertarem-se mais do hífen...” (p. 14).

Onésimo Almeida, quando entra no domínio da filosofia, frequentemente fala da verdade como algo poliédrico. Neste seu livro – O Peso do Hífen – Ensaios sobre a experiência luso-americana - a vivência do emigrante aparece também multifacetada e quantificada em diferentes unidades. O escritor ultrapassa os limites da sua atenta observação pessoal e baseia-se numa bibliografia que incorpora 76 páginas de citações. Será necessariamente, para sempre, um livro de referência em matéria de emigração.

Onésimo, numa perspetiva histórica, identifica os primeiros homens que terão pisado solo na América do Norte – Estevam Gomez, nas costas do Maine, em 1525; João Alvarez Fagundes, na Terra Nova, em 1520 e o seu irmão Gaspar terá também aportado à Terra Nova antes de 1500. A seguir, o autor faz uma cronologia minuciosa do movimento açoriano emigratório e demais espaço português, indicando as terras de origem e pontos de destino das diferentes ondas de emigração, registando, ainda, as coordenadas histórico-económicas que provocaram tal êxodo. A geografia do destino parece tornar-se uma extensão do território português com localidades como: Martha’s Vineyard, Provincetown, Cape Cod, Fall River, New Bedford, Taunton, Lowell, Lawrence, Gloucester, Pawtucket, Providence, New York, Newark, Vales de San Joaquín, San Fernando e Santa Clara. A lista poderia continuar.

Os quatro períodos em que Onésimo divide a integração do imigrante nos Estados Unidos revelam diferentes valores do peso do hífen. Passarei a parafrasear o autor: No período anterior a 1965, o emigrante dissolve-se quase por completo no imenso caldeirão norte-americano, deles quase não restando o sobrenome. No período de 1965 a finais da década de 1980, propõe-se a substituição do melting pot pela conceção pluralista da salada em que os componentes da mesma manteriam as suas características. No período que se segue aos anos de 1980, dá-se uma desaceleração da euforia étnica da época anterior. O brio étnico ganha confiança, as comunidades envelhecem, os média portugueses têm menos apoio económico, assim como, também, menos leitores. O desinteresse pela política portuguesa é substituído por um maior grau de envolvimento na política local. A naturalização americana aumenta e mais portugueses tomam cargos políticos. Os filhos de emigrantes que completam cursos universitários e ocupam posições de relevo alcançam um número nunca visto. As divisões bairristas quase desaparecem. Gera-se uma espécie de estabilidade no seio das comunidades que no meio americano são reconhecidas pela sua aderência à ordem pública.

Nas décadas seguintes, o autor aponta duas direções na consolidação da L(usa)lândia: uma americanização contínua e progressiva, o que significa ‹‹desportugalização›› e a intensificação dos meios de comunicação, o que possibilita o contacto entre as comunidades luso americanas em áreas de interesse comum. Assim, continua o pensador: “O dilema do imigrante é: sair do ninho linguístico e cultural materno ou aventurar-se para além dele”. (p. 31). Prossegue: “Para muitos jovens, singrar no meio americano tem sido a consequência dum corte com a cultura portuguesa”, (p. 31). Mais adiante, “O mundo da L(usa)lândia é tão diferente do americano como o é do português”. (p. 35).

O professor Onésimo menciona três fatores que poderão afetar a consistência desse traço de união chamado hífen. São eles: um limitado domínio da segunda língua, o grau de instrução prévia e a idade inicial do imigrante (É o caso de Laurinda de Andrade que “partiu jovem da sua Terceira para os Estados Unidos e por isso se integrou bem”, p. 161). Dessa sorte, as citações autorizadas dos seguintes autores poderão estar sujeitas a interpretações de diferente peso e tonalidade: Vitorino Nemésio, em relação ao emigrante terceirense (ou, mutatis mutandis, outro qualquer) escreve: “O emigrante não pode estrangeirar-se: no fundo ficou o que era”, (p. 41). William Faulkner: “todo o homem é a soma do seu passado”. (p. 53). Finalmente, Tom Wolf: “you can’t go home again”, (p. 65).

O autor aproxima-nos da voz de alguns dos muitos distintos escritores (exilados, ou asilados? [sic]) das letras lusas da diáspora. José Rodrigues Miguéis refere-se à “dupla ligação afetiva que foi desenvolvendo com dois países”. (p. 155). Jorge de Sena fala de escritores portugueses que “carregaram às costas o fardo mais ou menos pesado da pátria”. (p. 157). Onésimo comenta desta forma os seguintes dois autores: De José Martins, escreve: “O sarcasmo era a resposta às mágoas que acumulou por onde foi passando”. (p. 159). A seguir: “A escrita de Eduardo Pinto não deixa de registar a dureza, a amargura, a melancolia pela perda do chão...”, (p. 162). O autor conclui: “Cada um a seu modo... resolveu o problema do exílio e da inultrapassável distância da pátria, conforme as circunstâncias... (que) ... constituíram parte do seu eu”. (p. 165).

No livro O Peso do Hífen ouve-se a voz de académicos, pensadores, historiadores, sociólogos, escritores, jornalistas, especialistas em diferentes áreas e a do povo. O autor leva o leitor à casa de cores garridas e ao jardim do emigrante português; nesse, observa-lhe a simetria, os altares, as estátuas e as latadas; cheira-lhe o aroma das flores e saboreia-lhes as hortaliças que originaram o seguinte provérbio em Rhode Island e Massachusetts: “Se queres ver uma batata crescer, fala-lhe português”; (p. 89). Nessa publicação, lê-se acerca de mitos e factos dos Irmãos Corte Real. Revisita-se a Pedra de Dighton. Nomeiam-se comunidades e figuras de destaque e sucesso no mundo luso-americano.

No capítulo Três décadas de literatura luso-americana: um balanço (1970-2010), Onésimo Almeida põe em relevo o património literário da experiência luso-americana. Referindo-se ao livro Guiomar de Caetano Valadão Serpa, publicado em 1990, diz: “Os subtítulos dos capítulos da narrativa descrevem claramente o conteúdo do livro, mas são também um bom resumo da problemática de toda a literatura que estamos a tratar: ‹‹[...] Decisão de partir – Regresso às ilhas – Retorno às Américas – Sonho e realidade.››. Desse período da literatura, Onésimo faz uma longa listagem dos escritores e das suas obras, quer em poesia, quer em prosa: o conto, a crónica, o ensaio, a narrativa, o romance, a escrita memorialista e traduções de obras de autores luso-americanos.
Desde sempre, a nossa gente gozou de boa reputação na opinião pública. Já a meados do século XIX, Charles Nofdhof ao referir-se aos nossos baleeiros, traçou-lhes o seguinte perfil: “São gente calma, pacífica, inofensiva, sóbria e industriosa... São tidos em grande estima pelos armadores e capitães.”(p. 22). Mais tarde, em 1942, numa polémica que se levantou em Provincetown, Mary Heaton Vorse escreveu um artigo intitulado ‹‹The Portuguese of Provincetown››, no qual em referência à gente das ilhas apregoa: “As dádivas que trouxeram para este país são incalculáveis”. (p. 132). A qualidade e ética de trabalho do nosso trabalhador mereceram elogios contínuos.

É verdade que há situações de peso. Veja-se, por exemplo, o testemunho de Helen Benedict, no seu livro Virgin or Tramp, publicado em 1992, a propósito do famigerado caso Big Dan’s: “Como resultado, o Big Dan’s não será esquecido. Revelou o cru avesso da sociedade americana – o conflito entre homens e mulheres, a suspeita generalizada em relação às vítimas, e o ódio recíproco entre americanos instalados e os que são vistos como estrangeiros, classe baixa, não-brancos, ou ‹‹o outro›› – e revelou a forma como estes elementos podem seduzir e enviesar a imprensa. (p. 262).

Para além de situações de peso, pode haver as de confusão pessoal. Joseph Pap, em livro de Lawrence Livine, diz: “O meu pai era judeu polaco, eu sou judeu americano ou sou americano judeu, seja qual for a maneira de dizê-lo. Às vezes sou apenas judeu. Mas nunca sou apenas americano”. (p. 203).

Penso que é em todo esse contexto que Onésimo escreve: “Nada disto é, porém, um lamento, apenas uma descrição que se pretende realista, com os factos a saltarem de todos os lados em seu socorro. E as exceções parecem suficientes para se considerar injusta a lamúria pura e simples”. (pp. 201-202). Será assim que o fiel da balança poderá oscilar na vida do emigrante.



quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Contos com Desconto, de Álamo Oliveira


ÁLAMO OLIVEIRA
CONTOS COM DESCONTO
Col. Ínsula – Nova Série
Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 1991

O livro de Álamo Oliveira, Contos com Desconto, é um exemplo de como essa espécie narrativa anda cada vez mais comprometida com outras. O conto sempre adoptou muitas máscaras, sendo que a mais comum e com a qual se confunde frequentemente é a da crónica. Na verdade, estamos diante de algo que se confunde com o conto-crónica, mas que mais se aproxima co conto-relato. Talvez por isso o título do livro já anuncia que devemos dar um certo desconto às histórias reunidas no volume. Justamente – temos que dar um grande desconto, pois não sabemos até onde vai o relato e onde fica o conto, onde está a realidade insular, isto é, do arquipélago açoriano, e onde germina a fantasia do escritor. Tanto é assim que os títulos que identificam os textos pouco ou nada têm a ver com a história contada. As provas desta afirmação acham-se, por exemplo, em «Não É pra Me Gabar» e «A Grafonola».
Os Contos de Álamo Oliveira constroem-se sobre coisas ou sobre acontecimentos, geralmente pitorescos, da vida e dos lugares açorianos. São relatos ou historietas enriquecidos pelo humor e a visão do mundo do Autor, que lhes empresta comicidade e realismo, num discurso marcado pela presença das ilhas, o que confere peculiaridade ao estilo do escritor. Também as gentes açorianas comparecem, com seu perfil inconfundível, sua interpretação ingénua de um universo aprisionado («O Coreto» e «Por Um Punhado de Espírito Santo»).
Uma surpresa aguarda o leitor no último texto do livro de Álamo Oliveira: o conto «Cinco Escudos». Este, sim
, perfeito sob todos os aspectos, de uma intensa artisticidade, com uma estrutura narrativa impecável. Um conto que vale o livro inteiro.
De qualquer forma, mesmo com o «desconto» de que fala o Autor, estes relatos, crónicas ou contos são a palavra das ilhas, e têm uma garantia de que não podemos duvidar.

Fernando Mendonça in Colóquio Letras n.º 134, outubro de 1994, pp. 155-156

.....................................................

Mónica Cabral, Os contos de Álamo Oliveira, forma breve 1, 2003, p. 163-178

Doutoranda
Universidade de Aveiro

Resumo: Este texto apresenta, num primeiro momento, os aspectos principais dos contos de Álamo Oliveira. Segue-se um breve esboço histórico-literário do conto de temática açoriana e, finalmente, uma visão mais detalhada dos contos deste escritor em que essa temática está presente.




Ilha Grande Fechada, de Daniel de Sá


     Daniel de Sá, Ilha grande fechada, 2ª., Ponta Delgada, Ver Açor, 2010

     Este livro, de Daniel de Sá, fez parte da lista de obras de leitura obrigatória para a Fase Regional do Concurso Nacional de Leitura, do ensino secundário, na Região Autónoma dos Açores, que decorreu no passado dia 26 de abril, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.
     A obra encontra-se organizada sob a égide de várias referências culturais marcantes no universo do povo açoriano e universal.  Na «Nota Prévia», é-nos apresentada a interligação entre os segundos títulos ou subtítulos e os respetivos autores, num total de nove elementos, simultaneamente, estruturantes e representativos do conjunto insular que começa em Lugar de massacre, um título de José Martins Garcia, e termina em A Viagem Possível, de Emanuel Félix.   
     Dando «o seu a seu dono», o autor desvenda outros dados inspiradores, como o título selecionado para a obra Ilha grande fechada, partilhado com um quadro do pintor Tomaz Vieira.
       João, o romeiro que inicia este percurso redentor no cumprimento de uma promessa, persegue o sonho da partida, apenas concretizável após completar um percurso circular, um ciclo de salvação que o leve ao tão desejável (quanto impossível!...) desprendimento da terra e do espaço telúrico, “A ilha, toda inteira. Passo a passo há-de João andá-la de ponta a ponta, duzentos e cinquenta quilómetros em redor, cinquenta léguas compridas de cansaços e Ave-Marias.” (p.9).
     O caminho, de martírio e de sacríficio, faz-se paralelamente no espaço e num tempo rememorado que fundamenta a necessidade de alcançar o fim, o propósito que o levou a encetar esta odisseia pessoal e simbólica.
     A vontade de seguir um movimento de partida leva João a analisar as suas raízes mais profundas e a combater os seus “demónios” mais recônditos. Na preparação para essa ausência da ilha, obriga-se a um processo de purificação e de desprendimento total que acaba por não atingir em pleno, “Ah! Maldita terra, Diana! Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela!” (p.132).  O romeiro toma consciência da sua condição de ilhéu, da resistência inevitável do Homem à terra, um destino inexorável que acabará por adquirir contornos mais trágicos com Diana.
     A leitura desta obra leva-nos à descoberta das crenças, da fé, dos rituais religiosos e pagãos que coexistem lado a lado, no crescimento de cada um de nós. Ingredientes que, desde logo, constituem um estímulo para acompanhar este percurso à volta da ilha e ao mundo interior do ser humano.


Paula Cotter Cabral


A força da Literatura Açoriana na voz de Daniel de Sá
por Augusto de Abreu (Academia São José de Letras) e Cristina Vianna
(Associação dos Cronistas, Poetas e Contistas Catarinenses)


(…)
      Através do personagem protagonista de Ilha Grande Fechada, o romeiro João apresentou-me uma ilha de penitências e de sacrifícios a serem compensados pelo esforço da tradicional romaria da quaresma. João, que retornara de uma guerra que não era dele, agora enfrentava os seus próprios inimigos internos: parecia-lhe que, passando a pão e água, com os pés feridos e a alma sulcada já pela saudade, a sua emigração para a América apagaria os anos de luta infrutífera que tivera na sua terra natal. Os costumes de seu povo, as suas inquietudes, as riquezas da sua cultura açoriana, os entes queridos e os desafetos ficariam agora numa outra dimensão. Cheguei mesmo a sofrer no peregrinar obsessivo de João, por alcançar o lugar que o levaria para fora da ilha, onde, pensava ele, encontraria a si próprio.
      Comecei, então, a sair do livro, a construir o autor, que se apresentava a mim, através da sua literatura, numa contextualidade contemporânea, mas que discutia os conflitos atemporais do homem sem perder seus valores íntimos, conservando, sobretudo, a ética de nossos ancestrais.
      Era ficção e, no meu pensamento, não poderia haver distanciamento entre o autor e seus personagens. A despeito de toda a teoria literária, eu sentia a presença do escritor que também sofria. Via-o criando suas histórias o mais próximo da realidade a que a ficção pode chegar e reconhecia nesse ato o seu desprendimento em relação à sua própria condição humana. Seus personagens, por mais trágicos que sejam, não são julgados, e o leitor mesmo, conduzido pelo narrador, não reage contra a atitude desses personagens. Aceita-os. Compreende-os. Mesmo assim, em toda a obra, embutida nas entrelinhas subjaz uma constante defesa da moral, do caráter e da dignidade de quem os vive e os cria. E aí, senti-me, eu mesma, um personagem.
      Os trágicos (e tão possíveis) fins dos contos e novelas de Daniel de Sá nos prendem a alma. O caminhar simples de uma vida cotidiana, verosímil, capaz de ser vivida por qualquer mortal, nos aproxima, em igual nível, dos seus personagens, que não são heróis do ponto de vista clássico, mas heróis pela sua condição humana. Em Ilha Grande Fechada, num gesto definitivo, o protagonista sacrifica sua cadela, a fim de não deixar afetos na ilha, numa tentativa, quase à beira da loucura, do gesto extremo que lhe permitiria partir, com remorsos sim, mas com a certeza de que ninguém, nem mesmo um animal, sofresse a dor da distância.   O que ele não sabia era que a pior maneira de continuar na ilha era saindo dela, como afirmava o autor nas palavras do narrador.
      Era um modo de viver Ilhéu. Era, provavelmente, o dilema atroz que perturba quem almeja partir. Uma reprodução (quase) fiel dos usos e dos costumes e do sentir açoriano que se martiriza em todas as vésperas. Registro minucioso, quase documental. Passou-me que essas histórias construídas pela imaginação fundamentavam-se nas lembranças e registros do autor. Seria a realidade o alicerce da sua ficção?
(…)

in Cadernos Açorianos, Suplemento 2 MARÇO 2010, DEDICADO A DANIEL DE SÁ

Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dez Regressos, de Nuno Costa Santos


Dez Regressos na criação literária de Nuno Costa Santos: uma outra visão
por Claudia Keenan Gelb



RESUMO
Este artigo visa defender a ideia de que a obra Dez regressos, de Nuno Costa Santos, é um romance e não um livro de contos como aparenta ser à primeira vista. Dez regressos é de um gênero híbrido, em que as fronteiras são muito tênues, o que é cada vez mais recorrente na literatura produzida nos dias de hoje. E também porque, como no romance, não é o desfecho que interessa, e sim todo o percurso dos acontecimentos, deixam-se em aberto as diversas possibilidades de leitura que essa obra provoca.

CONTEÚDO
(...)
Nuno Costa Santos  escolheu como pano de fundo as  mazelas  sofridas  pelo ser  humano no dia-a-dia. As
personagens do livro têm problemas (ou conflitos) diferentes, mas todas procuram, muitas vezes em desespero, o amor e a felicidade. A temática da busca (ou regresso) por momentos afortunados, em que a existência não era um fardo e um eterno arrastar de correntes, pauta cada uma das ações dos tipos apresentados no romance, questão a qual também aludiram Henry James (5) (1995) e Todorov (6) (1970). Desiludidos, eles estão sempre a ir ao encontro de alguém muito especial, como se essa perseguição implacável fosse a redenção final.
(...)

para continuar a ler aqui Dez regressos na criação literária de Nuno Costa Santos: uma outra visão


O Terceiro Servo, de Joel Neto


O Terceiro Servo
ROMANCE, Editorial Presença, 2000



in Joel Neto - Crónicas

Miguel Barcelos, jornalista nascido nos Açores no ano da Revolução de Abril, lê num jornal a notícia do assassinato de um velho amigo. Decidido a investigar o sucedido, parte para os Açores. A viagem no espaço é também uma viagem no tempo: um longo percurso de confrontação interior. Entre a recordação das relações entre ele e o morto e as divagações sobre si próprio, Miguel confronta Açores e Lisboa, a cidade onde vive na convicção de que triunfou. Mas outras questões se interpõem. Amor, relações sociais, pedofilia, o fim do milénio, a revolução, o futebol, a economia e até mesmo a fúria dos elementos naturais – tudo se mistura, abalando profundamente as convicções do protagonista. No fim, Miguel opta pelo cómodo caminho da ignorância. À semelhança do terceiro servo da parábola bíblica, prefere fechar os olhos ao desafio que a vida lhe lançou em nome de uma estabilidade falsa mas imediata. Afinal, o jornalismo é o máximo a que pode ambicionar, o que já por si implica a soma possível de toda a sabedoria e de toda a ignorância do mundo – e sobretudo uma visão desdenhosa sobre o lado superficial das coisas, num impulso de síntese enganador mas assumido.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Que paisagem apagarás, de Urbano Bettencourt


Que paisagem apagarás,
     de Urbano Bettencourt 

por Victor Rui Dores in Faial Online15 de setembro de 2010



     Urbano Bettencourt é o rigor e a busca incessante da palavra exacta e essencial. Poeta, filólogo, professor, ensaísta (especialista em literaturas insulares), criador literário, homem de pensamento, este picaroto habita a palavra e é por ela habitado – na perspectiva nemesiana de quem, leccionando e escrevendo, se desfaz em linguagem.

     O seu último livro, Que paisagem apagarás (Publiçor, Ponta Delgada, 2010), que reúne vários textos dispersos por diferentes publicações, alguns em suporte electrónico, ao lado de outros ainda inéditos, é um verdadeiro deleite intelectual.
     Atravessadas por um sopro poético, estamos perante um conjunto de narrativas que transfiguram a realidade pelo toque da ficção, balançando entre o real e o imaginário. Temos descrições que são evocações e que tanto se soltam na dinâmica dispersiva da viagem, como se prendem à ilha – a real e a sonhada.

     Cronista de jornadas, o narrador assume, desde logo, a dupla condição de residente e viajante que, atenta e argutamente observa, reflecte e ironiza o real. Não se trata, porém, de uma viagem que se aventura para longe, ao encontro do Outro e do diverso, isto é, não é uma viagem em espiral segundo a expressão emblemática de Xavier de Maistre, Voyage autour de ma Chambre, nem as Viagens garrettianas são para aqui chamadas.

     Em tempo de “globalização galopante”, Que paisagem apagarás impõe-se como expressão da viagem pela literatura, já que esta é uma escrita marcada pela afectividade que resulta de experiências vividas, sentidas e sonhadas pelo seu autor. Acima de tudo, reflexão sobre a condição humana e viagem pela memória – por exemplo, a memória (magoadíssima) da Guerra Colonial.

     A depuração passa aqui por uma negação do acessório, do ornamento, da retórica. “Noite” e “Antes da noite” são duas narrativas de excelência literária. O texto “O comboio inexistente”, mais desenvolvido, daria uma bela peça de teatro. E há este dado surpreendente: em vários momentos surge-nos um tal Ernesto Gregório, interposto narrador, a funcionar como uma espécie de alter-ego do autor.

     Mas a cereja em cima do bolo está na segunda parte do livro: “Breves, brevíssimas e (des)aforismos”. Em curtíssimos e apetecíveis textos, eivados de humor, escárnio e maldizer, o autor lança olhares sarcásticos a uma certa mundividência social, cultural e literária.
     Por conseguinte, estamos na presença de um Urbano Bettencourt no seu melhor, isto é, na sua fase mais experimentada, consistente, criativa e fecunda.

....................................................


Breve apontamento sobre “Que Paisagem Apagarás” 
de Urbano Bettencourt

por Eduardo Bettencourt Pinto in Palavras no branco, 12 de outubro de 2010


Ocorre-me uma manhã luminosa no Funchal há uns anos atrás. À mesa do pequeno-almoço estavam  o Urbano Bettencourt,  o Miguel Moniz e eu. O sol, que parecia brotar das profundezas do mar, tocava os vidros da sala com um esplendor surreal. Era um relâmpago cristalino a banhar-se devagar nos copos de sumo de laranja. Descansava, enfim, em delícias mornas, no branco muito alvo da toalha de mesa.

A manhã era bela como são, aliás, todas as manhãs sob a pacificação dos lugares onde reverbera a poesia. A água azul da distância levava um barco, muito lentamente, num rumo de luz.

As vozes e os rostos dos nossos afectos fazem de um deserto um espaço habitável. Se estamos, como naquele momento, perante a sublimidade, então a circunstância de uma euforia ganha o perfil de um postal ou de um quadro de ressonâncias indeléveis.

Esta associação de ideias e memórias ocorreu-me enquanto lia o mais recente livro de Urbano Bettencourt, Que Paisagem Apagarás. Estaquei ante esta passagem:

“E dei comigo a pensar como será bom saber que, de cada vez que sucumbirmos ao íntimo chamamento do mar, uma voz de mulher há-de erguer-se para chorar-nos o destino e a perdição.”

Há, no conjunto dos textos que permeiam as suas páginas (desde a ficção à nota de viagem, por exemplo) uma harmoniosa hibridez de géneros literários. A leitura reparte-se por vários registos, é certo. No entanto, não se antagonizam; perfilam-se numa unidade exemplar que salienta o cuidado com que o autor pôs na sua organização. Não obstante os seus contornos próprios, os textos revelam um vector comum naquilo que é a marca inconfundível da mais do que afirmada escrita de UB: o estilo sóbrio e rigoroso. Na sua reverberação semântica encontramos segurança, finura no estilo,  e um perfil intelectual abrangente, tangível e coeso.

O devir inequívoco da sua mecânica criativa resulta em textos depurados, poéticos em certos momentos, e em cujo vínculo descobrimos ironia, humor, subtileza e elegância. E, derradeiramente, a sua emocionada humanidade.

Este título de Urbano Bettencourt, que se apresenta como um novo marco na sua já extensa bibliografia (poesia, narrativa e ensaio), revela um ficcionista de primeira água. Atente-se, por exemplo, neste diálogo entre Antero de Quental e Del Giudice no conto O comboio inexistente:

“ – Vou à procura de uma mulher que saiu de casa atrás de um verso de treze sílabas  – declarou Del Giudice, enquanto tentava surpreender no rosto do outro o efeito dessa confissão.
– Não creio que seja uma boa razão para viajar.
– A da mulher ou a minha?
– A sua. Perseguir um verso pode ser um projecto de vida, mesmo que se trate de um verso funesto. Mas lançar-se no encalço de uma mulher por causa disso já me parece uma intriga de novela de mistério.”

Perante a mestria narrativa patenteada neste novo título de Urbano Bettencourt, fica no ar esta pergunta e este desejo: Para quando um romance? Que Paisagem Apagarás é um livro delicioso que nos proporciona grandes momentos de prazer, nos comove, deslumbra e entretém.


..................................................


notas de apresentação de QUE PAISAGEM APAGARÁS, de Urbano Bettencourt

por Carlos Alberto Machado

São Roque do Pico, 30 de Julho de 2010

...................................................


Paisagens da memória: sobre o livro
Que paisagem apagarás, de Urbano Bettencourt

por Luiz Antonio de Assis Brasil, 2011




quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Almas Cativas, de Roberto de Mesquita

Almas Cativas e Poemas Dispersos de Roberto de Mesquita por Carla Cook in Notebook, 6 de julho de 2011.



A primeira vez que “Almas Cativas” foi editado, em 1931, já o seu autor falecera. Essa edição de parcos exemplares não chamou a atenção até que, oitos anos depois, Vitorino Nemésio escreveu sobre ela, considerando que a poesia de Roberto de Mesquita era o que de mais profundamente simbolizava o sentir açoriano. Depois desta primeira análise, os mais conhecidos críticos da Literatura Portuguesa interessaram-se pelo livro único, vendo em Roberto de Mesquita a expressão do Simbolismo – a descrição saudosa, o pessimismo reflexivo, um sentimento de abandono, a animização da Natureza, o spleen envolto em mágoa e, sobretudo, o isolamento. O próprio Nemésio voltaria, mais tarde, a concentrar-se neste último aspecto num ensaio hoje quase mítico sobre a poesia de Roberto de Mesquita, onde o eleva à mais pura expressão do íntimo da açorianidade. É o isolamento que define a condição de ser açoriano; nesta e por esta circunstância, todo o seu íntimo se torna ilha, à semelhança do exterior que o rodeia.
Roberto de Mesquita (1871-1923) nasceu e morreu em Santa Cruz das Flores, já de si um local isolado. Foi o último filho do segundo casamento do seu pai e, como tal, viu logradas as hipóteses de prosseguir estudos, apesar do pai pertencer à baixa aristocracia. Só saiu dos Açores uma única vez na vida (em 1904), para visitar o irmão, que era professor em Coimbra e Viseu. Exerceu cargos de funcionário público em algumas das ilhas dos Açores e tinha ligações ao Partido Republicano. A sua carreira regular foi abalada por um escândalo de dívidas familiares. Profundamente abalado pela morte da mãe, mais sentiu acentuar-se o seu carácter melancólico e reservado. Rompeu o noivado com o seu amor de sempre (que, no entanto, não deixou de amar) e fez um casamento de conveniência que manteve por ser de bom tom com uma senhora de quem sempre se sentiu distante. Diz-se que morreu atacado de delírios e que ainda recitava versos no seu último estado febril.
Carla Cook


---------------
ROBERTO DE MESQUITA E O “ELOGIO DA SOLIDÃO”
UMA LEITURA DE ALMAS CATIVAS
por Maria Natália Gomes Thimóteo
Doutora - UNICENTRO – PR
O ensaio pode ser consultado aqui

Pedras Negras, de Dias de Melo


Texto de Victor Rui Dores publicado no boletim n.º 13, 2004, do Núcleo Cultural da Horta.


Dias de Melo
Pedras Negras

Lisboa, Salamandra
38ª edição, 2003



Vinde, vede e lede Dias de Melo, escritor, 78 anos de idade e 50 de vida literária, homem solidário, solitário e fraterno, viciado na escrita e no cachimbo, picaroto da Calheta de Nesquim, baleeiro da literatura açoriana.

Do recolhido silêncio do Alto da Rocha do Canto da Baía, continua este autor a aguentar o rumo da escrita, num percurso literário cujo universo temático consubstancia à sua volta a distância, a ausência, a vida e a morte no registo mais sentido de uma escrita de funda expressão humana e universal.

Dias de Melo continua a escrever e a surpreender, ele que fez da ilha do Pico e dos picarotos a matéria prima dos 27 livros que até à data publicou, em diversos registos e diversificados géneros literários: a poesia, a narrativa, o conto, a novela, o romance, a crónica, a monografia, a dissertação didáctico-pedagógica e o estudo etnográfico. Em toda a sua obra, este autor, sem nunca fazer concessões a modas literárias, conta-nos histórias dos homens do mar e da terra, gente de grande riqueza psicológica.

Conhecendo de perto a actividade baleeira e olhando-a e sentindo-a como coisa sua, Dias de Melo (ele próprio baleeiro esporadicamente) fez de grande parte da sua escrita um painel dessa mesma actividade, muito particularmente da que se reporta ao concelho das Lajes. Foi ele que deu à literatura portuguesa um testemunho empolgante e vigoroso sobre a história anónima e colectiva dos baleeiros do Pico, captando a verdadeira dimensão humana, social e dramática dessa epopeia marítima, sobretudo nos livros que constituem aquilo a que Santos Barros chamou “trilogia da baleia”: Mar Rubro (1958), Pedras Negras (1964) e Mar pela Proa (1976).

Pedras Negras passa por ser (e é) o livro mais emblemático de Dias de Melo, cuja 3a edição acaba de ser dada à estampa (Salamandra, 2003). Recorde-se que a primeira edição data de 1964 (Portugália Editora) e a segunda de 1985 (Editorial Veja), havendo desta obra uma edição em inglês: Dark Stones (Providence, Gávea Brown Publications, 1988), com notável tradução de Gregory McNab.

Escrito com sóbria mestria narrativa e arquitectado sobre a problemática da emigração, Pedras Negras é percorrido por uma profunda açorianidade, em que terras e gentes nos transmitem uma impressão de vida áspera, de solidão insulada, onde a luta pela dignidade é uma constante e a sobrevivência se ganha a pulso. A acção decorre entre os princípios do século XX até finais da Segunda Guerra Mundial. A personagem central é Francisco Marroco que, aos 16 anos de idade, desafia a ilha e foge de salto na baleeira “Queen of the Seas”, com os olhos postos na América... Só lá chegará três anos depois, tendo percorrido os mares de todo o mundo à caça da baleia, ele que encontrou na errância a sua forma de perseguir a felicidade e o sonho. Após ter conhecido a vida dura em terras americanas, Francisco Marroco regressa à ilha do Pico e é esmagado por essa mesma ilha, após o fugaz intervalo de uma felicidade passageira e ilusória, em que conheceu o estatuto de “senhor americano”...

Este é um livro que não envelheceu e continua a emocionar e a surpreender.

Victor Rui Dores